Não é um blog nem um diário

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 considerado como um dos grandes pensadores do declínio da civilização. Serviu na Segunda Guerra Mundial pelo exército da União Soviética tendo sido militante do Partido Comunista Polaco nos anos 40 e 50. Começou como professor universitário na Universidade de Varsóvia tendo sido afastado da mesmo por considerem as suas ideias como subversivas no comunismo.

A obra “Isto não é um diário”, publicado em 2012, são reflexões feitas pelo autor de temas que marcaram, e ainda marcam, a sociedade atual com base em noticias de jornais entre setembro de 2010 e março de 2011.

O titulo deste livro remete-nos imediatamente para a ideia de que não se trata de um diário pois, apesar de a sua organização ser feita por dias e todos eles identificados, neste caso aquilo que é escrito pelo autor não se refere à sua vida em especifico ou, exclusivamente a acontecimentos do dia em especifico, mas a assuntos diversos da sociedade.

O autor começa por confessar que não sabe o que irá escrever, nem sobre o quê, limitando-se a fazê-lo por ser aquilo que considera ser para si natural e o que melhor sabe. Escreve por ser para si este o modo de viver a vida, de lidar com o que o rodeia, um prazer. É algo de que precisa e sem o qual não sabe. Crê que o número de coisas sobre as quais já não deve falar estão a aumentar, mas, no entanto, são estas que vale a pena comentar. Considera que as coisas acontecem de forma demasiado rápida para se debruçar sobre um tema de estudo prolongado.

A partir daqui Bauman aborda os mais variados temas. Entre eles encontramos:

As questões ligadas à expulsão dos ciganos em Itália que relaciona com o facto de os homens terem tendência a afastar de si os outsiders, conceito de Norbert Elias, pessoas que não seguem os hábitos e costumes dos “estabelecidos”, considerando que estes representam o perigo e a ameaça. Ideia que se estende à atualidade, não com o povo roma mas com tantos outros. Através destes medos, algumas forças politicas vão ganhando força dando a ideia de que estão a tentar proteger os seus cidadãos, mas estão, na verdade, a alimentar-se do sentimento de insegurança.

A erosão da confiança e o florescimento da arrogância, é o titulo de outra entrada onde o autor reflete sobre a ideia de que é a confiança que sustenta a ordem económica e do perigo de desabamento desta no caso de desaparecer, A confiança nas instituições diminui, numa altura em que as pessoas precisam de alguém bem informado em quem acreditar, estando, no entanto, sob a sombra da possibilidade de fraude. As mentiras e os engodos são algo que é quase considerado normal e pelo qual se passa no dia a dia sem estranheza tal é o seu embrenhamento na vida social. Para Bauman é preciso tentar acreditar para “recuperar a nossa confiança na possibilidade da verdade…” (p. 48)

O conceito de cultural como algo distintivo e orientador do destino de cada um, é assim que o autor o apresenta. Bauman reflete acerca do facto de muitos atribuírem às características culturais acontecimentos e factos. É dado um exemplo de pesquisas num jornal opinião feitas no Canadá cujos resultados indicavam uma maior mortalidade em casos de cancro entre os mais pobres ou, pelo menos uma morte mais rápida. Esta ideia era atribuída pelos repórteres ao facto de os mais pobres fumarem mais que os ricos, mais educados. A chama “cultura dos pobres”, os preceitos culturais escolhidos, eram a causa e não outras questões como a subnutrição crónica e as condições de vida inferiores. O autor mostra-nos aqui a tendência da colocação de rótulos culturais aos indivíduos e à descriminação de que são muitas vezes vitimas por serem “diferentes”.

Os jovens e a instabilidade que estes enfrentam. A chamada “geração zero”, sem futuro nem oportunidades. A sua inserção numa sociedade em que a violência e o ódio tendem a controlar e a absorver o mais pacifico dos indivíduos. Os estudantes que saíram para o mercado em quantidades muito superiores às que este tem condições para receber. Enfrentam também as enormes dividas deixadas pelas gerações anteriores e que colocam em causa o seu futuro. Num mundo em que, para o autor, não existe a possibilidade de um “pós-trabalho” pois não deixará de haver consumo verifica-se uma deslocação dos empregos para países com poucas leis e regulamentações que restrinjam a liberdade dos capitalistas e a obrigação dos trabalhadores a aceitarem “salários de sobrevivência” para poderem ter um emprego.

Na América, a terra do sonho, que permitia àqueles que tudo almejavam atingir as suas expectativas, apresenta elevados níveis de desigualdade e uma cada vez maior necessidade de luta pela sobrevivência. A classe média decresce tal como a confiança na igualdade. A terra das oportunidades ganha em agressividade o que lhe falta em igualdade.

As inovações tecnológicas que prometeriam o aumento da nossa rede de conhecimentos e que supostamente nos traria mais amizades contribui para o isolamento. Consegue chegar-se mais longe, manter um grupo considerável de amigos num grupo em constante movimento. A comunicação face a face é substituída pelos dispositivos eletrónicos e tudo parece mais fácil.

Bauman fala-nos também de democracia, da instabilidade deste conceito. Os significados que definem a civilização ocidental têm tendência a alterar-se e a ganhar novos significados que se afastam. Aqueles que seriam os pilarem que sustentavam este ideal civilizacional transformam-se e a democracia inicia a sua descida rumo a uma era “pós-democrática”, com um eleitorado ignorante e que não se importa que se acomodam e deixam de agir perdendo assim a essência fundamental daquilo que seria idealmente este regime.

A sociedade de consumidores em que nos inserimos em que aquilo que realmente importa é a satisfação das necessidades de consumo sem olhar a meios para o fazer. O planeta empobrece à medida em que os indivíduos tentam enriquecer a todo o custo. Aqui, para Bauman, até o próprio estado é capitalista. A sustentabilidade é posta em causa assim como o futuro das gerações vindouras. A perspetiva de limitar o aumento do consumo para poder ambicionar uma salvação para o planeta parece uma visão utópica. Requer então que toda a humanidade tente abraçar a sobrevivência do planeta através do universo das obrigações morais mas tem, ao mesmo tempo, noção de que tal não será fácil.

O fenómeno do Facebook também não passa despercebido a Bauman. Esta rede social, veio trazer a possibilidade de combater a solidão que muitos sentiriam e à qual não conseguiriam escapar pelos meios tradicionais, ou até de se erguerem para além do anonimato e sentirem que são finalmente ouvidos e integrados. Aquilo que se ganha e que se perde com a introdução destas redes depende de cada um e daquilo que procura. Pode ter-se aberto mão de alguma forma da “intimidade” off-line em troca da on-line, mais rápida, sem esforço e, supostamente, com menos riscos. Com o Facebook, e ao contrário do que se possa pensar, não se pertence a uma comunidade mais sim a uma rede, dois conceitos bem distintos. Aquilo que dá significado aos relacionamentos mudou, tal como a ideia de proximidade. O privado e o público tendem também a fundir-se, com a discussão de temas privados na esfera pública e a revelação dos seus detalhes, à frente de todo., dando-se uma rutura na separação dos dois conceitos.  Expõe-se tudo sem pudor e deseja-se saber tudo sobre os outros. Todos se tornam mercadorias numa sociedade de consumo e o próprio Facebook é a montra.

O controlo que se tentar ter sobre os imigrantes advém do facto de se considerar que estes representam um perigo para as sociedades em que tentam entrar. A posição dos países face às pessoas em busca de asilo é cada vez mais rígida. Existe a ideia de que serão estes a implementar o perigo no interior das sociedades e não aqueles que já lá se encontram. O caso é aqui mais avançado do que o acima descrito relativo ao povo roma. A comunidade francesa teme que estes venham colocar os seus estilos de vida em risco. A tolerância face à multiculturalidade e à igualdade é cada vez menor. Bauman apresenta aqui ideias que remetem a Maalouf e à sua obra o “Mundo Sem Regras” ao questionar se o facto de impedir que os indivíduos demonstrem as suas características culturais distintivas exercendo sobre eles pressões culturais conflitantes se apresente como solução para a integração. O autor polaco reforça a ideia de Maalouf de que estas diferenças ao não serem reprimidas poderão contribuir para um maior diálogo intercultural, para o qual é também crucial um sentimento de segurança para as duas partes envolvidas.

A intolerância da ciência à religião, o fornecimento de armas para “combater” armas, a sua massificação e circulação, a desigualdade que coloca em causa o diálogo, o aumento da injustiça social, o colapso das estruturas sociais, representam mais algumas das várias questões abordadas pelo autor ao longo de todo o livro.

Em suma, Zygmunt Bauman fornece-nos ao longo de um espaço de seis meses, entre o outono e a primavera, inúmeras reflexões acerca dos mais variados assuntos. O autor debruça-se sobre alguns dos temas que foram abordados neste blog ao longo dos últimos meses de uma forma bastante interessante e que permite uma visão completiva. A forma como os vários temas nos são introduzidos e apresentados não se limitam a uma exposição de ideias e de opiniões, estas são até pouco explitadas. O que o autor nos oferece é a sua forma de ver os acontecimentos permitindo ao leitor uma reflexão própria. A forma como Bauman nos escreve acerca de temas tão variados, mas que marcam tanto a sociedade atual traz-nos perspetivas bastante interessantes. E, possivelmente, terá sido tudo isto que levou Steven Poole a afirmar que “se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo.”