Make the WORLD Great Again

O post desta semana é diferente. E é diferente porquê? Porque a leitura deste livro foi ela própria diferente. Quando comecei a ler Um Mundo Sem Regras de Amin Maalouf estávamos a dois dias das eleições presidenciais norte-americanas e a minha interpretação das palavras escritas era “e se isto acontecer?”. De repente passou a um “e agora?”. Tudo o que lia se assemelhava de alguma forma às circunstâncias em que nos encontramos. Esta obra foi escrita em 2009, no entanto, é impossível não se fazer um paralelismo com o momento atual.

A ideia inicial que nos é apresentada pelo autor é a de que o mundo atingiu um nível em que o desregramento é tal, alastrado a diversos domínios ao mesmo tempo, que poderemos estar a atingir o limiar de incompetência moral em que se inicia um processo de regressão. O que Maalouf já o via na altura, e nós vemos agora ainda mais, é a ascensão do fanatismo, daa violência, da exclusão e do desespero. É a destruição iminente da harmonia, da dignidade, da liberdade, da humanidade.

O primeiro capitulo, “As Vitórias Enganadoras”, começa com a recordação da queda do Muro de Berlim que trazia a esperança e o alivio da tensão entre o Ocidente e a União Soviética, a ameaça nuclear amainava e pensava-se que a democracia se espalharia por todo o planeta, destruindo barreiras, unificando os povos. Agora, exatamente 27 anos depois deste acontecimento esta esperança parece desaparecer.  O escritor libanês diz que, ao olhar para as várias partes do mundo, a Europa é a menor das suas preocupações por ser quem melhor avalia a amplitude dos desafios que a humanidade deve enfrentar, por ter os homens e as instâncias para as debater e elaborar soluções, e por ser portadora de um projeto unificador e de uma preocupação ética. Mas não estarão também todas estas questões em risco também?

O exemplo dado do mundo árabo-muçulmano, que apresenta um rancor contra a terra inteira parece já não ser caso único numa altura em que o presidente eleito pelos norte-americano baseou toda a sua campanha eleitoral na proliferação do ódio por praticamente todos os povos que não o americano, ou melhor o americano branco.

“O facto é que nos encontramos desde a queda do Muro de Berlim num mundo em que as prerrogativas são exacerbadas, nomeadamente as que decorrem da religião, onde a coexistência entre as diferentes comunidades humanas é, por isso mesmo, cada vez um pouco mais difícil e onde a democracia está constantemente à mercê das promessas identitárias.”, p.25

O Ocidente está hoje, todo ele, cheio de preconceitos étnicos que levam a cada vez mais divisões e à incapacidade de convivência entre as várias culturas.

As potências ocidentais, e principalmente os EUA, continuam a tentar preservar a sua supremacia, e não conseguindo fazê-lo pela superioridade económica ou moral fazem-no pela autoridade militar, cuja preeminência é incontestável. Os Estados Unidos possuem uma forte dominação do mundo, qualquer que seja o seu presidente. E, como diz Maalouf, não podem perder o controlo das fontes essenciais à sua economia, ou deixar que as forças que os poderiam prejudicar se movimentem com toda a liberdade. Tudo isto deixa-nos bastante preocupados com o que poderemos esperar daqui em diante. Um país com tanto poder será agora governado por alguém que parece, ele próprio desgovernado e acima de tudo ingovernável.

O autor diz a certa altura, enquanto fala da guerra no Iraque, que “nenhum dirigente tem interesse em deixar dizer que as suas reais motivações são a vingança, a avidez, o fanatismo, a intolerância, a vontade de dominação ou o desejo de impor o silêncio aos seus opositores.” (p.56) mas isto já não se verifica. Donald Trump manifestou todas estas intenções ao longo dos últimos meses e mesmo assim chegou ao poder. E não foi a um poder qualquer, foi a um poder sem igual.

O ocidente, e concentrando-nos muito nos Estados Unidos, deixou de por em prática muitos dos seus valores. Um deles, e o que mais está aqui em causa, é a universalidade, a humanidade como uma. Estamos a afastar-nos. A criar muros. A falar em nós e nos “outros”. A considerar algumas culturas e etnias como mais importantes e legitimas do que outras.

Amin Maalouf apresenta-nos a questão do poder e da sua legitimidade ao nível planetário, da existência de um governo global que aplique o seu poder aos diferentes povos possuindo uma legitimidade que não é económica ou militar. “E para que as identidades particulares possam fundir-se numa identidade mais vasta, para que as civilizações particulares possam inserir-se numa civilização planetária, é imperativo que o processo se desenrole num contexto de equidade, ou pelo menos se respeito mútuo e de dignidade partilhada.” Ora, considerando a América como uma superpotência mundial é preocupante que tudo o que se observa agora no país vá absolutamente contra estas ideias e não parece existir ninguém capaz de o controlar.

Uma das frases mais inquietantes deste livro é, no inicio do capitulo “Legitimidades Perdidas”, quando o autor diz “na época pressentia isso, hoje sei-o com toda a certeza, este voto na Flórida ia mudar o curso da História…”. O momento a que o autor de refere remete às eleições que levaram George W. Bush à presidência e a Flórida é agora um dos key states que deu, surpreendentemente, a vitória a Donald Trump, e que é agora alvo do ódio de muitos americanos. Será a história a repetir-se? Resta-nos esperar que não.

Mais à frente, voltamos a deparar-nos com outra questão importante: o papel global dos Estados Unidos. “A partir do momento em que os sufrágios dos cidadãos americanos, que representam cinco por cento da população mundial, são mais determinantes para o futuro de toda a humanidade do que os restantes 95 por cento, é porque há uma gestão política do planeta uma disfunção.” E agora? Agora que os americanos fizeram uma escolha que assusta, uma escolha aparentemente má e perigosa, o que será do resto do Mundo? Que consequências trará isto para nós que não pudemos ter nada a dizer nesta escolha?

No terceiro e ultimo capitulo, “As Certezas Imaginárias”, Maalouf diz-nos que, nesta época sem comparação, é preciso inventar referências, solidariedades, legitimidades, identidades e valores. Não podemos reencontrá-las porque este momento é singular. É preciso entrar numa fase diferente da aventura humana. Mas não é isso que está a acontecer. Pelo contrário, assistimos a um retrocesso. O preconceito acentua-se e cada um é cada vez menos livre de viver segundo a sua cultura e a sua religião. São julgados pelos seus modos de vida e tudo isto é feito através de uma generalização. Os imigrantes que vivem na América, muitos deles com toda a sua vida enraizada no país, filhos que já lá nasceram, cidadão apenas com um berço diferente são ameaçados. Vêm a sua vida a ser posta em causa e tudo aquilo que conquistaram e contruíram prestes a ruir. A diversidade, que se pode considerar um dos grandes valores da cultura ocidentes, já não parece sê-lo. Deixa-se de se olhar para o contributo que as diferentes culturas a viver em harmonia podem dar a um país, a capacidade de o tornarem mais forte e até de servirem como intermediárias para as relações com os países de origem. Todos são considerados uma ameaça. E neste assunto já nem nos podemos restringir aos EUA, a França, com o crescimento da força dos partidos de extrema direita, parece ir pelo mesmo caminho.

Afastá-los não será mais perigoso do que reconquistar a sua confiança? Só o futuro nos dirá.

O último dos problemas que encontramos neste texto é a ameaça das alterações climáticas. Para o autor este é o grande perigo. É face a este que precisamos de agir urgentemente, especialmente as grandes potências industrializadas cuja economia contribui tanto para este agravamento. Mas o presidente eleito dos EUA diz não acreditar que esta condição exista realmente, defendendo que se trata de uma invenção da china para diminuir a industria americana e conseguir suplantá-la. Estaremos então a caminhar rapidamente para o abismo? Conseguirá ainda a minha geração e das gerações mais novas ter um futuro neste planeta? Ou as ações inconscientes o “deixa andar” impossibilitarão que tal aconteça?

É então no “Epílogo” que o autor, e nós próprios, questiona se toda a turbulência do inicio do século XXI servirá para despertar o mundo globalizado, se poderá ser o fim de “uma Pré-História demasiado longa”, ou se terá repercussões de uma gravidade incalculável.

Como sairemos daqui? Haverá ainda saída?

“O que teve o seu tempo e que deve hoje ser encerrado é a história tribal da humanidade, a história das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre “civilizações”. O que termina diante dos nossos olhos é a pré-história dos homens. Sim, uma pré-história demasiado longa, feita de todas as nossas crispações identitárias, de todos os nossos etnocentrismos que não deixam ver, dos nossos considerados “sagrados”, quer sejam patrióticos, comunitários, culturais, ideológicos ou outros.(…) os únicos verdadeiros combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos serão científicos e éticos(…)”, p.271

Estará então este período a ser encerrado? Ou estaremos a regressar a esta “história tribal da humanidade”? As lutas, os ódios entre as comunidades éticas ou religiosas e as “civilizações” propagam-se a uma velocidade estonteante. Os Estados Unidos elegeram como seu líder uma pessoa que incentiva estas lutas e estes ódios. O etnocentrismo acentua-se e o ideal de humanidade unida esfuma-se. Conseguirá a humanidade sobreviver a um domínio assente na divisão, no ódio e na propagação do medo? Ninguém sabe, mas, a continuar assim, o futuro não parece risonho. E o fim da “história tribal” parece agora mais distante ainda do que pareceria a Maalouf quando o escreveu em Um Mundo Sem Regras, que para além do titulo desta obra parece dar nome ao mundo em que vivemos hoje.

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