(Ainda visamos a) Nobreza de Espírito?

“E nós? Ainda visamos a nobreza de espirito? Não a procuremos no mundo dos media, no mundo da politica, no mundo do ruido. O espirito nunca esteve aí. Não vão à academia. Expulsaram o espirito. E nas igrejas? Há uma razão que soa a oco, No mundo da fama. Aí perdíamo-nos.” (p.121)

Vivemos atualmente numa sociedade onde o conceito de nobreza de espirito parece escassear. Para qualquer lado que olhemos vemos exemplos da sua falta. O ser humano deixou-se corromper pelo utilitarismo e pela ansia do poder. Os ideias de civilização têm vindo a perder-se.

Em Nobreza de Espirito Rob Riemen compila momentos de vários autores que nos permitem pensar não só no que é a nobreza de espirito, mas também na forma como a história se repete ao longo dos tempos e nos perigos da perda da capacidade de pensar e da dissolução do ser humano no mundo capitalista.

Nesta obra encontramos a ideia de Espinosa de que “a mente é o maior dom da humanidade”. Para o filósofo, todo o individuo poderia perceber o que é realmente bom, e viver a sua vida de acordo com isso, se pensasse por si. Que seria o amor à sabedoria e a dedicação ao pensamento que permitiriam viver uma vida boa.

Atualmente, vemos que cada vez menos as pessoas pensam por si, deixando-se manipular por aquilo que lhes é dito. Deixaram de se questionar e de procurar a verdade limitando-se a tomar como verdade o que ouvem, aquilo que convém.

Vivemos um tempo em que se parece instalar, de novo, a opressão através de fanatismos, quer religiosos (que já existem) quer políticos. Estes fanatismos, segundo Espinosa não permitem o pensamento independente, cultivando o ódio pelos que pensam de forma diferente. Os recentes ataques terroristas e as ameaças sob as quais a europa tem vivido demonstram isso mesmo.

Outro exemplo é a candidatura de Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Uma ideologia que assenta na propagação do medo e do ódio.

“Qual o futuro da democracia, da liberdade politica, se o povo já não sabe qual é a essência da sua liberdade? Quando já não pensam, já não se deixam conduzir pela razão, mas estão escravizados por superstições, medos e desejos?”

A dignidade humana está a ser ameaçada através de discursos que incitam à critica, à desvalorização e à humilhação. Espinosa acreditava que a dignidade seria a essência da liberdade e que aqueles que se deixavam possuir pelo medo não saberiam o que significa a liberdade. Liberdade essa que, como ideal de vida conduzido pela verdade, era para ela a nobreza de espirito.

Para Thomas Mann, em quem o Riemen tantas vezes se inspira, considerava a ética pessoal era ameaçada pela politização do espirito, que focava a ideia da sociedade perfeita ou do individuo perfeito. Devíamos todos honrar a nossa existência procurando e duvidando, pois não seria o pensamento politico a deter a capacidade de resolver as questões da vida, coisa que só poderia ser feita pela educação liberal, a ética, a religião e a arte. A arte, por sua vez, seria destruída num mundo politizada ao ser reduzida a uma utilidade. A cultura, conceito que opõe ao de humanismo, a ser eliminada assim como a formação moral e espiritual do ser humano.

Ao considerar a cultura como uma nova forma de revelação da verdade, o seu desaparecimento levaria à aniquilação da verdade, e por sua vez à privação do individuo da sua dignidade. Mann atribuía também a existência de verdade à linguagem que nos permite pensar, conhecer o mundo e que molda as nossas experiências e emoções. O escritor alemão continuou sempre a escrever, independentemente daquilo que se passava à sua volta – desde a guerra ao suicídio do filho – para recuperar a linguagem que teria sido roubada pelos mentirosos.

Mann desiludiu-se com as democracias ocidentais que toleravam a ascensão de certos regimes apenas por interesses económicos. Algo que ainda acontece nos dias de hoje. A democracia, para Thomas Mann, teria de ter nobreza, não de sangue mas de espirito. Teria de respeitar a vida intelectual para que a demagogia não tivesse rede livre.

Não considerava que a arte poderia salvar a humanidade, poderia sim libertar a alma humana do medo e do ódio e levar assim o individuo mais longe.

Mais uma vez a arte apresenta-se como uma forma de comunicação que nos permite conhecer a realidade, o mundo e que permite a busca da verdade.

O ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 é um exemplo que está muito presente em Nobreza de Espirito. Este ataque, visto por muitos como sendo contra a civilização ocidental, no entanto alguns intelectuais consideram-no como um ataque à América.

Sendo a América um país sem historia e sem cultura, o ataque devia ser visto como uma critica.

O conceito de civilização foi definido por Condorcet como “uma sociedade que não precisa de violência nenhuma para introduzir mudanças politicas.” e para John Millar como “a nobreza de costumes que é a consequência natural da abundancia e da segurança.”

A prosperidade e a segurança são as condições para a civilização existir mas não os valores que delineiam a sua essência. Uma sociedade que dá primazia à propriedade material não tem civilização. Os ataques do 11 de Setembro dirigiram-se a edifícios que simbolizavam prosperidade e segurança. Isto poderá então levar-nos a pensar em ataques como o que foi feito ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, um ataque à liberdade de expressão e a uma sociedade que permite liberdades como essa e que é tão odiada por regimes onde nenhuma liberdade é tolerada.

Sócrates atribuiu aos intelectuais a tarefa de preservar o ideal intemporal da civilização. Esses mesmos intelectuais possuem o dever de “salvaguardar e transmitir o seu conhecimento do que é melhor e mais valioso.”

Para Camus, a existência dos intelectuais era justificada pela sua responsabilidade para com o mundo das ideias e a nobreza de espirito. Para o filósofo francês, estes

Com a politização e a ideia dos seres humanos perfeitos na busca de uma sociedade perfeita a nobreza de espirito foi esquecida. A falta de integridade intelectual é enorme assim como a traição dos intelectuais à nobreza de espirito. Esta traição vem da sedução do poder, de ser ouvido e admirado, e da má fé, a influencia do mundo cientifico vem apoderar-se do mundo intelectual e a linguagem da objetividade leva à perda do sentido do espirito.

Ginzburg aprendeu com os gregos que a essência da cultura era o desenvolvimento da alma humana. Tomava como seu dever intelectual transmitir aquilo que seria o melhor da herança cultural europeia nas suas publicações.

Já Herzen acreditava na liberdade como condição essencial para a existência de cultura. A proibição da cultura tornava a liberdade em algo sem sentido. O filosofo russo defendia que a seria a liberdade que permitiria aos indivíduos cultivarem as suas almas para se tornarem modelos da dignidade humana.

Nestes e noutros exemplos que nos são dados por Rob Riemen ao longo de toda a obra que a nobreza de espirito foi sendo ignorada ao longo dos tempos para dar lugar aos interesses particulares de cada um. A ganancia e o desejo de poder dos indivíduos levou a que, em diversos períodos da história, estes agissem de formas que vão contra a ideia de civilização e de moral. Na sociedade atual a nobreza de espirito é algo que não consta na vida daqueles que regulam a nossa sociedade. Vivemos numa sociedade de massas em que ninguém pensa por si, em que a busca pela verdade e pela essência vai desaparecendo no meio de indivíduos que desempenham um papel passivo na sua vida. As ideologias do terror vão tomando conta, o medo é proliferado diariamente e o respeito pela vida e pela dignidade humana praticamente não existe. Os problemas da sociedade são ignorados quando valores – monetários – mais altos se levantam. Não nos é possível acreditar em tudo o que nos é dito pois na sua maioria a informação que chega até nós está controlada por aquilo que querem que acreditemos, a versão da verdade em que devemos acreditar para que nos comportemos da forma que mais interessa.

A nobreza de espirito escasseia e o ser humano afasta-se da sua cultura e dos seus valores tornando-se apenas mais um membro da sociedade e enquanto não regressar à educação do seu espirito e à sua valorização talvez não consigamos avistar dias melhores para o mundo em que vivemos.

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