A Influência das Aplicações de Opinião na Comunicação dos Restaurantes – II

Antes dos avanços da internet, ao longo dos últimos anos, as organizações conseguiam defender melhor a sua reputação controlando a informação que estava disponível sobre si, através, por exemplo, de bons gestores de relações públicas. Os social media e a world wide web têm atualmente um poder tão forte que a gestão da reputação teve de se expandir ao online. No entanto, este processo não é tão fácil pois as empresas deixaram de ter controlo sobre aquilo que se diz e a sua reputação pode estar em risco. (Dolle 2014)

Os avanços tecnológicos trouxeram também os sites de opinião de consumidores como a Amazon, a Yelp, e a Zomato. Estas plataformas têm um impacto grande tanto nos consumidores como nos negócios. Para os primeiros, funcionam como fontes de informação que ajudam o processo de tomada de decisão enquanto que para os segundos podem ser uma forma de perceber aquilo que os seus públicos pensam de si.  (Parikh et al. 2015)

Numa época em que, com o acesso às novas tecnologias, qualquer um pode ser um critico online, as opiniões ganham uma enorme importância. (Doward, 2012) Está até provado que 80% das pessoas irão pesquisar acerca de um restaurante antes de o visitar pela primeira vez.  (Restaurant App Engines, 2011)

Entre as plataformas de opiniões no ramo da restauração estão algumas das mais famosas como a OpenTable – um serviço que permite a reserva de mesas em restaurantes e a posterior avaliação da experiência incentivado pela aplicação cerca de 24h após a refeição; a Yelp – com cerca de 130 milhões de utilizadores todos os meses e que, apesar de incluir outros serviços, 20% das opiniões deixadas são acerca de restaurantes. O Yelp proporciona também aos negócios a possibilidade de serem alertados por e-mail no caso de ser feita uma avaliação a seu respeito; e a Zomato – uma aplicação móvel, das mais conhecidas no mundo e talvez a mais conhecida em Portugal, que permite encontrar restaurantes e obter informação acerca dos mesmos, e sobre a qual falaremos mais à frente. (Free Review Monitoring, 2015)

Um estudo levado a cabo na Universidade da Califórnia, por Michael Anderson e Jeremy Magruder, tentou perceber a relação entre as avaliações online e as decisões de compra dos consumidores. Para isso focaram-se nos efeitos de avaliações online positivas feitas a 300 restaurantes em São Francisco na plataforma americana Yelp.

Os dois economistas concluíram que o aumento no negócio acontecia sem qualquer mudança de preço ou da qualidade da comida ou do serviço e que, assim sendo, a alteração se deveria às opiniões.  Anderson e Magruder consideraram que: “os resultados deste estudo demonstram que – apesar de os sites e fóruns de social media poderem não trazer o retorno financeiro que os investidores procuram – representam um papel com uma importância crescente no modo como os consumidores julgam a qualidade dos bens e serviços.” (Doward, 2012)

Os sites de opiniões e avaliações são considerados como a word of mouth da nova geração e, como tal, têm uma grande importância para o sucesso dos negócios. (Free Review Monitoring, 2015) De acordo com um estudo recente, 67% dos consumidores tomam em consideração as opiniões online antes de tomarem as suas decisões de consumo. (Hinckley, 2015)

Estamos agora perante uma nova forma de comunicação, o Electronic Word of Mouth (eWOM). O eWOM é uma forma viral de passar mensagens e de fazer sugestões. São os contactos pessoas que ocorrem pela internet, como são exemplo as opiniões e avaliações em plataformas online.

Para o poder desta nova via contribuem aspetos como o desejo de partilhar tudo que pauta a nossa sociedade atual, explicado psicologicamente por questões como a necessidade de pertence e a de transparecer como alguém entendido.  A grande maioria das pessoas procura aconselhamento online para as mais variadas questões do seu dia a dia, as opiniões online modelam as atitudes dos consumidores face a um produto. As pessoas confiam na opinião de outras pessoas mais do que no marketing tradicional, o aspeto relacional sai aqui potencializado. (Chen & Xie 2008)  A eWOM é mais poderosa do que a word of mouth tradicional porque atinge mais pessoas.

As opiniões nas plataformas online são uma forma de eWOM que pode acelerar o crescimento de um serviço, mas que também o pode travar. Estudos demonstram até que os consumidores preferem a informação dada por estes meios do que a que provem de meios tradicionais como o marketing e a publicidade. (Bickart & Schindler, 2001 em Plotkina & Munzel, 2016)

Os utilizadores de plataformas como a Yelp ou a Zomato tornam-se novos influenciadores de opinião. Uma má opinião pode destruir a reputação de um restaurante ao mesmo tempo que pode ajudar a melhorá-la. O chef britânico Gordon Ramsay, num dos episódios do seu programa Kitchen Nightmares disse que o Yelp é uma oportunidade de obter feedback e melhorar o negócio quando um participante culpou a plataforma pelo falhanço do seu restaurante.(Szkolar , 2013)

É daqui que parte a ideia de que estas aplicações podem, e muito, influenciar a forma como os restaurantes desenvolvem a sua comunicação.

Este tipo de plataformas funciona como um forte facilitador do processo de investigação para o desenvolvimento de qualquer tipo de estratégia de negócio. Possuir o conhecimento acerca das opiniões, em principio sinceras, daqueles que o visitam é um grande apoio para os restaurantes. A análise das opiniões dos seus visitantes permite aos restaurantes entenderem o funcionamento do seu negócio e a forma como são percecionados. (Inc. Staff, 2010) (Parikh, Behnke, Nelson, & Vorvoreanu, 2015; Inc. Staff, 2010)

Em Reviews, Reputation, and Revenue: The Case of Yelp.com, Michael Luca encontrou ligações entre opiniões positivas e revisita, contribuindo para confirmar a tese de Anderson Magruder. Para além disso encontrou também evidências de que os negócios mais pequenos são os mais afetados por estas avaliações e também aqueles que mais podem beneficiar das mesmas. (Luca 2016)

Os grandes restaurantes, de renome ou pertencentes a uma cadeia, têm geralmente equipas de comunicação responsáveis por toda a gestão das relações com os clientes e da reputação. No entanto, os estabelecimentos mais pequenos e aqueles que ainda estão a começar não têm muitas vezes essa possibilidade pelo que as aplicações se tornam uma ferramenta facilitadora no processo de aferição de opiniões. Tal conclusão permite perceber que estes restaurantes têm de estar atentos a este tipo de plataformas. Se o restaurante é bom e as pessoas gostam, a forma mais fácil de outras pessoas o conhecerem é através das avaliações online. Estas avaliações não são apenas palavras bonitas. Estas opiniões levam, provavelmente a um aumento no negócio. (Rype Group, 2016)

Mas não são só as boas avaliações que são importantes para os restaurantes. As más têm também o seu lado positivo. Estas podem funcionar como uma ferramenta de análise para que os restaurantes e os seus gestores possam perceber o que é preciso fazer. Através da análise deste tipo de opiniões é possível entender quais os aspetos de que os consumidores mais se queixam – desse a qualidade do serviço ao tempo de espera – e agir em conformidade.

A forma como os restaurantes respondem a este tipo de criticas é também crucial. Como é óbvio ninguém gosta de ver que alguém diz mal do seu estabelecimento, no entanto, é necessário pensar antes de agir. Uma resposta pronta a uma opinião negativa e que mostre que a opinião do público é tida em conta demonstra uma preocupação e uma proximidade entre o restaurante e os seus clientes. A sinceridade e a educação são aqui fatores essenciais.

A disponibilidade para a resolução de uma situação que causou desagrado a um consumidor pode contribuir para que este se torne eventualmente num cliente satisfeito. Para tal é preciso que exista um esforço por parte do restaurante não só para entender aquilo que aconteceu como também para encontrar uma forma de compensar o cliente. Após esta atitude, em que não basta dizer ao cliente que se vai resolver sem efetivação fazer tenções de tal, é até possível pedir ao cliente em causa se pode mudar a sua opinião ou fazer uma outra. (Free Review Monitoring, 2015)

Poderei neste caso apresentar um exemplo pessoal. A situação ocorreu na aplicação da Zomato aquando da publicação de uma opinião acerca do serviço de um restaurante de take-away. O restaurante em causa cobrou uma taxa de entrega superior àquela que era habito cobrar e foi daí que surgiu a queixa. O restaurante respondeu de imediato tentando entrar em contacto e entender a situação, tendo posteriormente oferecido uma entrada, numa encomenda seguinte, de forma a poder compensar o ocorrido. Tal atitude levou a que alterasse a opinião escrita inicialmente, tal como foi pedido pelo responsável, educado e preocupado, encarregue de retificar a situação.

Quando estas avaliações dizem respeito, por exemplo, a problemas com o serviço ou membros do staff – que não são simpáticos ou eficientes – estas servem para perceber quem realmente é uma mais valia para o estabelecimento, um embaixador da marca, e que apenas a prejudica. (Free Review Monitoring, 2015)

Com uma atenção redobrada a estas avaliações, os gestores dos restaurantes podem também perceber a contribuição de cada membro do staff, positiva ou negativa, e agir em conformidade recompensando aqueles que são uma mais valia e tentando analisar o caso daqueles que não o são. Deste modo, as avaliações contribuem também para a comunicação interna e para com os colaboradores.

No que diz respeito ao feedback dado pelos clientes é essencial não só ouvir o que têm para dizer mas implementar mudanças sugeridas e acompanhar a reação dos clientes. A participação dos clientes certos pode contribuir muito para o desenvolvimento do negócio. (Inc. Staff, 2010) (Kaplan & Haenlein, 2010; Inc. Staff, 2010).

As más opiniões são uma boa oportunidade para olhar para o negócio através da perspetiva de outros. A proatividade é aqui muito importante. A monitorização constante das opiniões feitas online e a rápida resposta dada tem de ser tida em consideração. Tal atitude demonstra a importância que é dada a estes stakeholders. (Hilton, 2016)

Apagar as más avaliações não deve nunca ser a resposta utilizada. Ao fazê-lo os restaurantes podem piorar muito a sua situação pois os clientes sentir-se-ão desrespeitados e poderão sentir-se tentados a proliferar a sua opinião nas várias plataformas que tenham à sua disposição. ( Gillin & Gianforte, 2012 em Dolle, 2014)

Analisemos agora em especifico o caso da Zomato. A aplicação móvel, usada por milhões de pessoas em todo o mundo está presente em mais de 10.000 cidades em 23 países.

A equipa da Zomato procura obter informações de cada espaço regularmente para garantir que estas se mantêm atualizadas. A aplicação possui ferramentas especializadas de gestão e envolvimento de clientes de forma a tentar ajudar os restaurantes a “ter mais tempo para se dedicarem à comida, o que resulta em melhores experiências gastronómicas.”

A aplicação permite que os restaurantes giram a sua presença online através da plataforma. Podem assim responder a opiniões e consultar as estatísticas da sua página de forma gratuita.

Os restaurantes podem também anunciar o seu negócio na Zomato através da compra de banners publicitários e destaques nas coleções o que aumenta a visibilidade do restaurante, mas nada tem a ver com as avaliações feitas aos mesmos. Um restaurante pode aparecer em destaque em determinada coleção tendo uma avaliação feita pelos utilizadores, os únicos que as fazes, de 3 numa escala de 0 a 5.

No site da empresa encontramos testemunhos de donos de restaurantes sobre a sua experiência com a aplicação.

“Estamos a usar a Zomato como uma ferramenta para nos ajudar a melhorar a experiência dos nossos clientes, através de ferramentas que nos permitem compreender melhor os nossos clientes, como o registo de chamadas e o feedback nas opiniões.” Owner, Bikanervala, New Delhi

“Desde que começámos a anunciar na Zomato, tivemos um aumento significativo do nosso tráfego online. Mais importante que isso, permitiu-nos receber feedback construtivo do nosso público alvo, que nos ajudou a servir com o máximo de qualidade.
Recomendamos vivamente a Zomato para qualquer restaurante ou bar.”
Owner, Boudoir & GQ, Dubai

A Zomato utiliza também um algoritmo automático para detetar opiniões suspeitas. (Zomato, 2016)

No seu estudo Michael Anderson e Jeremy Magruder afirmam que a influências das opiniões positivas nos restaurantes pode levar a que os gestores tentem de alguma forma manipular as opiniões escrevendo avaliações falsas. No entanto, as aplicações e sites possuem sistemas que permitem detetar estas tentativas.

É possível perceber, através da análise dos perfis dos utilizadores na aplicação da Zomato se estes são “perfis falsos” criados pelos restaurantes para deixar avaliações positivas. (Doward, 2012)

Existem, no entanto, algumas regras para os Restaurantes. Entre elas encontramos:

Não pedir opiniões: a aplicação pede aos restaurantes que não solicitem opiniões e que as “ganhem” por prestarem um serviço e servirem comida de qualidade não sendo aceitável a oferta de compensações em troca de opiniões.

Responder de forma positiva às críticas: a aplicação aconselha os restaurantes a pensarem antes de responderem a uma opinião negativa e a encararem-nas como feedback construtivo e uma oportunidade para corrigir algo.

Demonstrar responsabilidade: A Zomato destaca-se também da responsabilidade de não moderar quaisquer atividades questionáveis sobre os restaurantes nas opiniões.

Não ceder a pressões: os restaurantes não devem ceder a pressões de clientes para receberem opiniões positivas. A Zomato aconselha os restaurantes a não incluírem nas compensações face a opiniões negativas a oferta de refeições gratuitas pois tal poderia levar a que fossem feitas criticas negativas apenas para obter tal regalia.

De forma a garantir a neutralidade dos conteúdos da Zomato, os donos, funcionários e quaisquer outros afiliados dos restaurantes não poderão publicar opiniões na Zomato.

A Zomato não tem colaboradores ou associados pagos para escrever opiniões e, no seu código de ética, os colaboradores têm ressalvada a responsabilidade de manter a Zomato como uma plataforma neutra não sendo permitido o tratamento especial a nenhum restaurante. (Zomato, 2016)

“Now, every diner you seat has the potential to become an amateur food critic and is likely to broadcast his or her review online for the world to see”. (Sparker, 2016)

O objetivo deste trabalho prende-se com abrir portas para uma investigação mais profunda das potencialidades das aplicações de avaliação para a definição de estratégias de comunicação. Apesar dos diversos estudos realizados nomeadamente em áreas como a hospitalidade e os negócios existe ainda uma falha no que toca à áreas das Relações Públicas. Como é possível concluir deste trabalho, esta área tem uma enorme potencialidade para os restaurantes, nomeadamente para aqueles que não possuem grandes orçamentos para apostar na comunicação.

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O Novo Espaço Público

Daniel Innerarity escreveu “O Novo Espaço Público” de modo a fazer uma analise ao conceito de espaço público . Dividido em 3 capitulos esta obra aborda diversas questões que devem ser pensadas, ou repensadas, ao abordar o espaço público numa sociedade plural.

O autor começa por recorrer a uma descrição de Botho Strauss que considera ilustrar metaforicamente a situação em que vivemos, uma contradição entre um convite à participação num espaço público e a fragmentação dos discursos e dos interesses, a coexistência de processos que nos vinculam juntamente com diferenças que nos separam e parecem insuperáveis. É feita uma comparação entre os indivíduos que antes chamavam a atenção dos comensais num restaurante sem nada dizer e aqueles que convocam uma greve apelando à responsabilidade para ilustrar o que é a politica atual que descreve como uma breve ilusão de unidade num mundo muito fragmentado.

O propósito da investigação é-nos apresentado por Daniel Innerarity como uma análise da ideia do espaço público e das suas transformações na sociedade contemporânea. Considera como hipótese fundamental o conceito de espaço público como uma construção frágil e variável que requere trabalho continuo de representação e argumentação que tem como inimigos a imediatez de uma politica estratégica e a imediatez desestruturada dos espaços globais abstratos. Innerarity diz-nos que irá defender, em ultima instancia, que a politica é mais um artificio do que a gestão do que existe.

Para o autor o espaço público consiste no âmbito no qual se organiza a experiencia social e que deveria ser uma instância de observação reflexiva através da qual os membros de uma sociedade produzissem uma realidade comum. Considera também que temos de perceber o que é hoje o comum para resolver o dilema entre unidade e diferença.

O conceito de espaço publico originário do debate politico de seculo XVII precisa de uma nova reflexão. O espaço público já não é somente o lugar da comunicação de cada sociedade consigo própria, mas entre as diversas sociedades.

Este conceito encontra-se agora em decadência. Deixa de ser um espaço de mediação e de formação de opinião, mas é simplesmente o espaço onde se tornam publicas.

O autor acredita que a fragmentação do espaço comum, embora ainda incerto aquilo que poderá trazer, empobrece a vida politica.

“Como atuar num mundo comum quando este perde a sua consistência, quando o «nós» que fundamenta todas as formas de compromisso tende a tornar-se impalpável?”

O primeiro capitulo deste livro inicia-se com a ideia da existente preocupação em traçar as fronteiras entre o público – espaço das relações impessoais e instrumentais do mercado e do estado –  e o privado – âmbito da vida pessoal, lugar do afeto, da intimidade, da afinidade eletiva e do abastecimento emocional. As transformações da vida política e as modificações da vida privada vieram revolucionar essa distinção, assim como a irrupção do privado, do pessoal nos cenários públicos.

O autor identifica dois fenómenos, o fenómeno de privatização do público – conversão do que há de mais intimo em espetáculo da comunicação social, proeminentes que dão a conhecer a sua vida privada e as pessoas comuns que mostram toda a sua vida em programas da televisão e politização do privado – os grandes problemas públicos são hoje em dias ligados à vida privada, a experiencia de possuir uma vida privada tornou-se numa questão politica como por exemplo o tema do aborto.

Para Daniel Innerarity um espaço público bem articulado exige a existência de questões sociais que são postas no âmbito de decisão pública e de outras que são protegidas do escrutínio de todos. Mesmo criticando a distinção tradicional de publico e privado esta continua a possuir uma importância para manter um equilíbrio e o respeito pela intimidade.

Num mundo em que os espaços sociais são vulneráveis às convocações sentimentais, a política transforma-se em vitimologia: arte de dramatizar de maneira convincente e de utilizar em beneficio próprio a força emocional gerada pelas vitimas da injustiça.

A distancia e a proximidade transformaram-se no mundo global. Com a capacidade de transmissão dos eventos por parte dos meios, os indivíduos não ficam menos afetados por acontecimentos mais longínquos do que aquilo que ficam com os mais próximos.

A politica consiste assim num modo de civilizar o emocional e impedir a instrumentalização das paixões, transforma o sentir em atuar e atribui responsabilidades onde estas faltavam.

A religião no espaço publico é um dos principais problemas na sua configuração. O fator religioso está presente nos conflitos que surgem entre as sociedades e à discussão do multiculturalismo. É preciso pensar as condições em que a religião pode ser levada em conta no pluralismo da esfera publica. Tornou-se num principio irrenunciável a ideia de que nenhuma religião deve ter uma posição oficial numa sociedade, deixando de a estruturar. A privatização da religião não significa a sua relegação para uma intimidade secreta. O problema é agora qual o lugar das crenças no mundo social. Entra-se assim numa época onde a religião está liberta de conotação politica e social, mais livre e mais pessoal.

A segunda parte do “Novo Espaço Público” apresenta-nos a questão da crise da representação política. A crise de representação em que nos encontramos faz com que, na visão de Innerarity, a esfera pública deixa de poder ser um lugar de construção deliberativa que uma sociedade democrática necessita para avançar.

A ideia da politica como lugar privilegiado para tornar visível o publico e comum é posta em questão por processos que colocam a politica cum horizonte de imediatez.

O autor apresenta-nos como evidencias inúteis das politica o apelo ao povo que serve como que para bloquear a discussão. O povo apresenta-se como uma ideia a definir e o populismo apela ao conhecimento da sua verdadeira vontade, sendo um sintoma de desarticulação social. Os movimentos populistas, que tiveram a sua força nos anos 80, representam-se ainda em algumas retoricas contra a globalização, na retorica do vitimismo, em algumas exigências de segurança e identidade, entre outros.

Innerarity indica como processo preferencial para o combate ao populismo a suspeita daqueles que formulam as suas preferências sem se referirem ao contexto social e à cooperação com os outros e que se recusam a ver para alem do imediato recorrendo a argumentos simplistas e sem precisão.

No espaço publico fragmentado ninguém quer representar o interesse geral e a autodeterminação social. Esfumou-se a ideia de um “nós” capaz de reflexão e orientação coletiva. Existe uma recusa de formular a possibilidade de conceber a integração social no sentido da qual se orientam aos conceitos de espaço publico e mundo comum. Ganha assim terreno os particularismos generalizados em grupos que defendem interesses específicos. As politicas vão tomando em conta a diversidade dos casos individuais e a discussão politica é condicionada pelas pressões exercidas. Innerarity oferece-nos também a ideia de que alguns governos acreditam que ao tratar particularmente os problemas dos vários grupos sociais evita ter de tratar a sociedade como um todo.

A despolitização consiste assim no pensamento da sociedade como um ajuntamento de grupos com interesses a satisfazer.

O valor democrático do espaço público assenta assim na ideia de que é em debate publico que os sistemas se constroem de modo a criarem integração e não se limita à satisfação repartida.

“O velho principio ontológico de que o todo é mais que a soma das partes traduz-se politicamente numa esfera pública entendida como algo que não se limita a equilibrar pura e simplesmente as preferências individuais nem resulta da justaposição das opiniões reveladas pelas sondagens.” (p.64)

Innerarity considera o diálogo como elemento mediante o qual se dá a formação da identidade e da vontade política dos cidadãos. Os debates são o instrumento pelo qual se gera uma informação que pode confirmar pontos de partida ou modificá-los.  Assim como a discussão pública que se apresenta como uma oportunidade de esclarecimento público dos interesses.

Identifica-se como urgente a legitimação adequada daquilo a que se chama democracia representativa. Para que os políticos representem melhor os cidadãos. A relação de representação, embora nos dececione por vezes, não pode ser prescindida. A representação é um espaço de criação. Os problemas políticos são originários da dificuldade de legitimar democraticamente a distancia ente representados e representantes de maneira a que sirva para uma coerência e operatividade da sociedade.

É necessário gerir o pluralismo das sociedades contemporâneas, e enfrentar os desafios que este impõe em termos de integração social e política. O desafio consiste em articular a convivência em sociedades plurais de modo a evitar um modelo comunitarista e da privatização das identidades.

O conceito de igualdade é-nos apresentado com uma crescente escassez na capacidade de integração. É preciso reformular esta ideia, segundo Innerarity, reavaliando as diferenças. Temos de entender a igualdade como politica e culturalmente diferenciada.  As diferenças, por exemplo dos grupos culturais, devem ser interpretadas como isso mesmo, diferenças. Não são só as diferenças dos indivíduos que devem ser respeitadas, mas também as diferenças dos grupos sem penalizar ninguém pela pertença. Para se respeitar a liberdade individual tem-se igualmente de respeitar a pluralidade cultural.  O reconhecimento da humanidade tem como composto a condenação das diferenças. Innerarity considera que a nossa tarefa é estar à altura do pluralismo cultural e politico atual. Deparamo-nos com uma transformação politica que este pluralismo social exige e enfrentamos um desafio que consiste na integração através do reconhecimento publico das identidades diferenciadas.

Os meios de comunicação é outro dos temas abordados por Innerarity. É através dos meios de comunicação que se produz o sentido de pertença e a integração comunicativa instantânea da sociedade mundial. São eles que nos dão a sensação de viver num mundo único. As dimensões de comum e de publico foram aumentadas por estes meios. A logica própria pela qual este espaço funciona e é essencial para compreender o espaço publico e a opinião publica configurada pelos meios de comunicação.

A orientação dos indivíduos no espaço publico só pode suceder com o saber que se obtém nos meios de comunicação. E a compreensão do mundo contemporâneo requer a compreensão prévia do funcionamento destes meios e a construção que fazem da realidade. Nestes, não é a verdade que está tanto em jogo, mas o exercício de funções sociais como a estabilidade e o entretenimento. Os meios de comunicação ordenam o caus do mundo de certa forma e tornam possível a criação de uma imagem dele, ao mesmo tempo que nos dão uma sensação de imediatez e dramatismo.

Os meios de comunicação são, segundo Innerarity, um horizonte mitológico. Os temas são sempre os mesmos e existe sempre um confronto politico no qual devemos tomar parte, ou uma catástrofe comovente.

O conceito de realidade tem também de ser tido em conta quando se fala nos meios de comunicação. O verdadeiro interesse aqui muito pouco. O espaço comunicativo é governado por outros valores. Os meios de comunicação fazem-nos viver num mundo em segunda mão onde tudo é mediado. A informação que chega até nós e o saber que adquirimos é mediado por interpretações interinas e que fazem com que a nossa interpretação da realidade seja uma reinterpretação. Aquilo que achamos saber é basicamente o que acham que devemos saber, é algo de que ouvimos falar, que nos contaram, e cujo conteúdo se baseie na interpretação que o outro fez desse mesmo acontecimento.

Para além disto, o mundo dos meios de comunicação possui também a sua dose se redundância. A esquematização quase sempre igual da moldura informativa dá-nos uma sensação de menos inquietação, A redundância é o objetivo autentico dos meios de comunicação. Proporcionam uma ideia de segurança. A informação é assim mais uma componente do entretenimento do que do conhecimento. A confirmação dos preconceitos contribui para uma estabilização emocional.

Os meios de comunicação dão forma à opinião publica. As opiniões que podemos ter são formatadas em termos de espectro e de contexto. A opinião publica deixou de ser o lugar em que se descobre a realidade, mas não passou a ser também um espaço dominado por poderes ocultos.

A cidade e o espaço público são duas ideias que se encontram ligadas, sendo a primeira associada ao lugar onde se dá a afirmação do segundo. Innerarity apresenta a origem grega da palavra “público” que significa “exposto aos olhares da comunidade” e opõe espaço público (espaço cívico do bem comum) e espaço privado (dos interesses particulares). As praticas da cidade são um resumo da maneira dos indivíduos se compreenderem. É então introduzida a ideia de que as transformações que as cidades têm sofrido ao longo do tempo influenciam o modo de pensar a urbanidade e de que forma se poderão realizar nos novos espaços que surge a relação entre cidade e civilização que advém dos primórdios.

A cidade é o local onde várias culturas convivem, onde existe maior heterogeneidade, onde as deslocações são facilitadas, é o lugar de comunicação, de divisão do trabalho. Os habitantes das cidades não têm heranças comuns, direitos e obrigações de convívio, nem as práticas tradicionais de quem vive no campo. Ao passo a que na aldeia quase toda gente se conhece e se cumprimenta, na cidade tosos são estranhos, estrangeiros. As esferas pessoal e de trabalho não se misturam, e aqueles que conhecemos num contexto especifico nada nos dizem nos outros. A aceitação pessoa não é obrigatória para a existência de uma relação funcional, não é necessário a partilha de valores. É um espaço social onde as diferenças são aceites. As fronteiras intimas não são necessariamente derrubadas para a existência de uma ralação. É assim que surge uma verdadeira vida privada. Existe uma separação das esferas sociais. A urbanização permite a existência de uma tolerância urbana em que cada um pode ser feliz da forma como entender sem se recriminado pelo seu comportamento. A cultura na cidade consiste na possibilidade de ação dos homens em conjunto sem que tenham obrigatoriamente de ser idênticos uns aos outros.

Na cidade não é fácil fazer uma distinção entre centro e periferia. O crescimento das cidades que se te dado nos últimos anos não contribui ara a integração social espacial e cultural. O possível fim da cidade como a conhecemos pode contribuir para um desaparecimento do espaço publico. A periferia ao densificar-se faz com que se misture com o centro e que os limites deste sejam difíceis de identificar. Os diferentes grupos de população afastam-se dispersa, e acabam por e juntar àqueles com que se identificam diminuindo a heterogeneidade. O espaço urbano perde assim o seu ideal unificador. Com o aumento da mobilidade a cidade vai-se dissolvendo. Os espaços públicos acabam assim por deixar de ser um espaço de criação de vida coletiva devido à crescente separação e fragmentação que ocorre nas cidades,

É colocada então a questão se o espaço publico necessita de um espaço físico para existe um espaço de experiencia humana intersubjetiva. Innerarity conclui que a cidade se transformou num espaço simbólico. As características que dantes ziziam respeito à urbanidade estão agora nas pessoas tanto do campo como da cidade que graças à crescente mobilidade podem todos ter acesso a tudo. Os valores da urbanidade já não se limitam ao espaço da cidade.  Nas cidades da modernidade já não é requerido a centralidade espacial. O novo espaço publico existe ara alem do paradigma arquitetónico.

O facto de as sociedades modernas caracteriza-me por uma homogeneização interior e exilio do estranho. A complexidade trazida pela emigração pela mobilidade, pelas relações económicas torna necessária uma mudança de vocabulário. Este mundo plural não é qualificável pelos conceitos pré-existentes. Tornou-se assim essencial a criação de novos modos de pensar a realidade e novas estratégias para articular as individualidades em consonância com a pluralidade de pertenças características destas sociedades. Verifica-se a necessidade de uma nova politica que não reprima a afirmação étnica, religiosa ou linguística, que não se reduza à uniformidade e à homogeneidade.

O segundo capitulo aborda as questões da articulação do espaço público.

A complexidade das sociedades pede um novo conceito de bem comum que surja como um critério de avaliação para a ação politica. Sendo o comum um conceito inverosímil pois uma cisa deve ser boa para alguém em concreto e não para um conceito abstrato, para alem disso é também ambíguo. Questiona-se também acerca do que consiste em o bem e como é avaliado.  No entanto, o conceito de bem comum e irrenunciável na politica para evitar que os políticos beneficiem apenas as suas “clientelas”.  Introduz—se a Ideia de Norbert Elias de que a politica é uma luta pela definição de um bem comum. Conclui-se assim que o bem comum tem de ser definido no plural pois resulta da articulação entre bens comuns e individuais e que tem de ser mantida em aberto.

A questão da organização social da responsabilidade é outra das que é imposta por Innerarity. A criação de uma teoria contemporânea da responsabilidade exige que se oponha à euforia da responsabilidade e ao derrotismo.

Não se pode esperar que os conflitos de interesses se resolvam através de responsabilidade. Mas a responsabilidade torna-se crucial na proteção dos interesses das gerações futuras que está desprotegido. A responsabilidade consiste num principio que pode colmatar as falhas dos meios tradicionais de intervenção numa época desarticulada. Innerarity considera necessário que se imponha uma politica da responsabilidade numa altura em que o âmbito da validade da responsabilidade está em causa.

Innerarity diz-nos por fim que há outro tipo de globalização que se coloca a favor das relações económicas, culturais e sociais que consiste num mundo pensado e articulado que reconhece a diversidade e a interdependência. O espaço publico internacional está a formar um novo sujeito que avalia as práticas politicas. A ignorância deve ser combatida e já não pode ser um fator a favor da politica internacional. Não se pode invocar a democracia sem que haja uma adesão da opinião pública. É urgente ter uma consciência da unidade e da fragilidade do mundo humano para o proteger, face à globalização, de um possível fim do publico.

A desresponsabilização que a globalização atual implica leva a uma perda do espaço publico. Esta destruturação social deixa o individuo desprotegido.

No entendo a globalização tem como consequências positivas o facto de tornar a definição exclusivista do interesse próprio como impossível. O mundo começa a caracterizar-se pela multilateralidade.

Para um governo de globalidade que gira este novo mundo exige-se uma revisão de procedimentos para a atribuição de responsabilidades, dos sistemas de representação e das estratégias politicas utilizadas.

Innerarity conclui que a urgência que o mundo atual enfrenta é a de cosmopolitizar a globalização, transformar âmbitos que eram considerados, por exemplo, da tradição em questões que devem ser discutidas. É preciso compreender os novos desafios que a globalização apresenta à politica e adaptar as estratégias governativas aos mesmos. O mundo e as sociedades mudaram, o conceito de espaço público e privada já não é igual àquele em que foi criado e o comportamento dos indivíduos também já não é o mesmo. Innerarity próprio assim ao longo desta obra que, olhando para os aspetos mutantes, se pense nestes conceitos e que se adaptem as conceções para fazer face àquilo a que os indivíduos consideram atualmente como sociedade.

Make the WORLD Great Again

O post desta semana é diferente. E é diferente porquê? Porque a leitura deste livro foi ela própria diferente. Quando comecei a ler Um Mundo Sem Regras de Amin Maalouf estávamos a dois dias das eleições presidenciais norte-americanas e a minha interpretação das palavras escritas era “e se isto acontecer?”. De repente passou a um “e agora?”. Tudo o que lia se assemelhava de alguma forma às circunstâncias em que nos encontramos. Esta obra foi escrita em 2009, no entanto, é impossível não se fazer um paralelismo com o momento atual.

A ideia inicial que nos é apresentada pelo autor é a de que o mundo atingiu um nível em que o desregramento é tal, alastrado a diversos domínios ao mesmo tempo, que poderemos estar a atingir o limiar de incompetência moral em que se inicia um processo de regressão. O que Maalouf já o via na altura, e nós vemos agora ainda mais, é a ascensão do fanatismo, daa violência, da exclusão e do desespero. É a destruição iminente da harmonia, da dignidade, da liberdade, da humanidade.

O primeiro capitulo, “As Vitórias Enganadoras”, começa com a recordação da queda do Muro de Berlim que trazia a esperança e o alivio da tensão entre o Ocidente e a União Soviética, a ameaça nuclear amainava e pensava-se que a democracia se espalharia por todo o planeta, destruindo barreiras, unificando os povos. Agora, exatamente 27 anos depois deste acontecimento esta esperança parece desaparecer.  O escritor libanês diz que, ao olhar para as várias partes do mundo, a Europa é a menor das suas preocupações por ser quem melhor avalia a amplitude dos desafios que a humanidade deve enfrentar, por ter os homens e as instâncias para as debater e elaborar soluções, e por ser portadora de um projeto unificador e de uma preocupação ética. Mas não estarão também todas estas questões em risco também?

O exemplo dado do mundo árabo-muçulmano, que apresenta um rancor contra a terra inteira parece já não ser caso único numa altura em que o presidente eleito pelos norte-americano baseou toda a sua campanha eleitoral na proliferação do ódio por praticamente todos os povos que não o americano, ou melhor o americano branco.

“O facto é que nos encontramos desde a queda do Muro de Berlim num mundo em que as prerrogativas são exacerbadas, nomeadamente as que decorrem da religião, onde a coexistência entre as diferentes comunidades humanas é, por isso mesmo, cada vez um pouco mais difícil e onde a democracia está constantemente à mercê das promessas identitárias.”, p.25

O Ocidente está hoje, todo ele, cheio de preconceitos étnicos que levam a cada vez mais divisões e à incapacidade de convivência entre as várias culturas.

As potências ocidentais, e principalmente os EUA, continuam a tentar preservar a sua supremacia, e não conseguindo fazê-lo pela superioridade económica ou moral fazem-no pela autoridade militar, cuja preeminência é incontestável. Os Estados Unidos possuem uma forte dominação do mundo, qualquer que seja o seu presidente. E, como diz Maalouf, não podem perder o controlo das fontes essenciais à sua economia, ou deixar que as forças que os poderiam prejudicar se movimentem com toda a liberdade. Tudo isto deixa-nos bastante preocupados com o que poderemos esperar daqui em diante. Um país com tanto poder será agora governado por alguém que parece, ele próprio desgovernado e acima de tudo ingovernável.

O autor diz a certa altura, enquanto fala da guerra no Iraque, que “nenhum dirigente tem interesse em deixar dizer que as suas reais motivações são a vingança, a avidez, o fanatismo, a intolerância, a vontade de dominação ou o desejo de impor o silêncio aos seus opositores.” (p.56) mas isto já não se verifica. Donald Trump manifestou todas estas intenções ao longo dos últimos meses e mesmo assim chegou ao poder. E não foi a um poder qualquer, foi a um poder sem igual.

O ocidente, e concentrando-nos muito nos Estados Unidos, deixou de por em prática muitos dos seus valores. Um deles, e o que mais está aqui em causa, é a universalidade, a humanidade como uma. Estamos a afastar-nos. A criar muros. A falar em nós e nos “outros”. A considerar algumas culturas e etnias como mais importantes e legitimas do que outras.

Amin Maalouf apresenta-nos a questão do poder e da sua legitimidade ao nível planetário, da existência de um governo global que aplique o seu poder aos diferentes povos possuindo uma legitimidade que não é económica ou militar. “E para que as identidades particulares possam fundir-se numa identidade mais vasta, para que as civilizações particulares possam inserir-se numa civilização planetária, é imperativo que o processo se desenrole num contexto de equidade, ou pelo menos se respeito mútuo e de dignidade partilhada.” Ora, considerando a América como uma superpotência mundial é preocupante que tudo o que se observa agora no país vá absolutamente contra estas ideias e não parece existir ninguém capaz de o controlar.

Uma das frases mais inquietantes deste livro é, no inicio do capitulo “Legitimidades Perdidas”, quando o autor diz “na época pressentia isso, hoje sei-o com toda a certeza, este voto na Flórida ia mudar o curso da História…”. O momento a que o autor de refere remete às eleições que levaram George W. Bush à presidência e a Flórida é agora um dos key states que deu, surpreendentemente, a vitória a Donald Trump, e que é agora alvo do ódio de muitos americanos. Será a história a repetir-se? Resta-nos esperar que não.

Mais à frente, voltamos a deparar-nos com outra questão importante: o papel global dos Estados Unidos. “A partir do momento em que os sufrágios dos cidadãos americanos, que representam cinco por cento da população mundial, são mais determinantes para o futuro de toda a humanidade do que os restantes 95 por cento, é porque há uma gestão política do planeta uma disfunção.” E agora? Agora que os americanos fizeram uma escolha que assusta, uma escolha aparentemente má e perigosa, o que será do resto do Mundo? Que consequências trará isto para nós que não pudemos ter nada a dizer nesta escolha?

No terceiro e ultimo capitulo, “As Certezas Imaginárias”, Maalouf diz-nos que, nesta época sem comparação, é preciso inventar referências, solidariedades, legitimidades, identidades e valores. Não podemos reencontrá-las porque este momento é singular. É preciso entrar numa fase diferente da aventura humana. Mas não é isso que está a acontecer. Pelo contrário, assistimos a um retrocesso. O preconceito acentua-se e cada um é cada vez menos livre de viver segundo a sua cultura e a sua religião. São julgados pelos seus modos de vida e tudo isto é feito através de uma generalização. Os imigrantes que vivem na América, muitos deles com toda a sua vida enraizada no país, filhos que já lá nasceram, cidadão apenas com um berço diferente são ameaçados. Vêm a sua vida a ser posta em causa e tudo aquilo que conquistaram e contruíram prestes a ruir. A diversidade, que se pode considerar um dos grandes valores da cultura ocidentes, já não parece sê-lo. Deixa-se de se olhar para o contributo que as diferentes culturas a viver em harmonia podem dar a um país, a capacidade de o tornarem mais forte e até de servirem como intermediárias para as relações com os países de origem. Todos são considerados uma ameaça. E neste assunto já nem nos podemos restringir aos EUA, a França, com o crescimento da força dos partidos de extrema direita, parece ir pelo mesmo caminho.

Afastá-los não será mais perigoso do que reconquistar a sua confiança? Só o futuro nos dirá.

O último dos problemas que encontramos neste texto é a ameaça das alterações climáticas. Para o autor este é o grande perigo. É face a este que precisamos de agir urgentemente, especialmente as grandes potências industrializadas cuja economia contribui tanto para este agravamento. Mas o presidente eleito dos EUA diz não acreditar que esta condição exista realmente, defendendo que se trata de uma invenção da china para diminuir a industria americana e conseguir suplantá-la. Estaremos então a caminhar rapidamente para o abismo? Conseguirá ainda a minha geração e das gerações mais novas ter um futuro neste planeta? Ou as ações inconscientes o “deixa andar” impossibilitarão que tal aconteça?

É então no “Epílogo” que o autor, e nós próprios, questiona se toda a turbulência do inicio do século XXI servirá para despertar o mundo globalizado, se poderá ser o fim de “uma Pré-História demasiado longa”, ou se terá repercussões de uma gravidade incalculável.

Como sairemos daqui? Haverá ainda saída?

“O que teve o seu tempo e que deve hoje ser encerrado é a história tribal da humanidade, a história das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre “civilizações”. O que termina diante dos nossos olhos é a pré-história dos homens. Sim, uma pré-história demasiado longa, feita de todas as nossas crispações identitárias, de todos os nossos etnocentrismos que não deixam ver, dos nossos considerados “sagrados”, quer sejam patrióticos, comunitários, culturais, ideológicos ou outros.(…) os únicos verdadeiros combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos serão científicos e éticos(…)”, p.271

Estará então este período a ser encerrado? Ou estaremos a regressar a esta “história tribal da humanidade”? As lutas, os ódios entre as comunidades éticas ou religiosas e as “civilizações” propagam-se a uma velocidade estonteante. Os Estados Unidos elegeram como seu líder uma pessoa que incentiva estas lutas e estes ódios. O etnocentrismo acentua-se e o ideal de humanidade unida esfuma-se. Conseguirá a humanidade sobreviver a um domínio assente na divisão, no ódio e na propagação do medo? Ninguém sabe, mas, a continuar assim, o futuro não parece risonho. E o fim da “história tribal” parece agora mais distante ainda do que pareceria a Maalouf quando o escreveu em Um Mundo Sem Regras, que para além do titulo desta obra parece dar nome ao mundo em que vivemos hoje.

(Ainda visamos a) Nobreza de Espírito?

“E nós? Ainda visamos a nobreza de espirito? Não a procuremos no mundo dos media, no mundo da politica, no mundo do ruido. O espirito nunca esteve aí. Não vão à academia. Expulsaram o espirito. E nas igrejas? Há uma razão que soa a oco, No mundo da fama. Aí perdíamo-nos.” (p.121)

Vivemos atualmente numa sociedade onde o conceito de nobreza de espirito parece escassear. Para qualquer lado que olhemos vemos exemplos da sua falta. O ser humano deixou-se corromper pelo utilitarismo e pela ansia do poder. Os ideias de civilização têm vindo a perder-se.

Em Nobreza de Espirito Rob Riemen compila momentos de vários autores que nos permitem pensar não só no que é a nobreza de espirito, mas também na forma como a história se repete ao longo dos tempos e nos perigos da perda da capacidade de pensar e da dissolução do ser humano no mundo capitalista.

Nesta obra encontramos a ideia de Espinosa de que “a mente é o maior dom da humanidade”. Para o filósofo, todo o individuo poderia perceber o que é realmente bom, e viver a sua vida de acordo com isso, se pensasse por si. Que seria o amor à sabedoria e a dedicação ao pensamento que permitiriam viver uma vida boa.

Atualmente, vemos que cada vez menos as pessoas pensam por si, deixando-se manipular por aquilo que lhes é dito. Deixaram de se questionar e de procurar a verdade limitando-se a tomar como verdade o que ouvem, aquilo que convém.

Vivemos um tempo em que se parece instalar, de novo, a opressão através de fanatismos, quer religiosos (que já existem) quer políticos. Estes fanatismos, segundo Espinosa não permitem o pensamento independente, cultivando o ódio pelos que pensam de forma diferente. Os recentes ataques terroristas e as ameaças sob as quais a europa tem vivido demonstram isso mesmo.

Outro exemplo é a candidatura de Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Uma ideologia que assenta na propagação do medo e do ódio.

“Qual o futuro da democracia, da liberdade politica, se o povo já não sabe qual é a essência da sua liberdade? Quando já não pensam, já não se deixam conduzir pela razão, mas estão escravizados por superstições, medos e desejos?”

A dignidade humana está a ser ameaçada através de discursos que incitam à critica, à desvalorização e à humilhação. Espinosa acreditava que a dignidade seria a essência da liberdade e que aqueles que se deixavam possuir pelo medo não saberiam o que significa a liberdade. Liberdade essa que, como ideal de vida conduzido pela verdade, era para ela a nobreza de espirito.

Para Thomas Mann, em quem o Riemen tantas vezes se inspira, considerava a ética pessoal era ameaçada pela politização do espirito, que focava a ideia da sociedade perfeita ou do individuo perfeito. Devíamos todos honrar a nossa existência procurando e duvidando, pois não seria o pensamento politico a deter a capacidade de resolver as questões da vida, coisa que só poderia ser feita pela educação liberal, a ética, a religião e a arte. A arte, por sua vez, seria destruída num mundo politizada ao ser reduzida a uma utilidade. A cultura, conceito que opõe ao de humanismo, a ser eliminada assim como a formação moral e espiritual do ser humano.

Ao considerar a cultura como uma nova forma de revelação da verdade, o seu desaparecimento levaria à aniquilação da verdade, e por sua vez à privação do individuo da sua dignidade. Mann atribuía também a existência de verdade à linguagem que nos permite pensar, conhecer o mundo e que molda as nossas experiências e emoções. O escritor alemão continuou sempre a escrever, independentemente daquilo que se passava à sua volta – desde a guerra ao suicídio do filho – para recuperar a linguagem que teria sido roubada pelos mentirosos.

Mann desiludiu-se com as democracias ocidentais que toleravam a ascensão de certos regimes apenas por interesses económicos. Algo que ainda acontece nos dias de hoje. A democracia, para Thomas Mann, teria de ter nobreza, não de sangue mas de espirito. Teria de respeitar a vida intelectual para que a demagogia não tivesse rede livre.

Não considerava que a arte poderia salvar a humanidade, poderia sim libertar a alma humana do medo e do ódio e levar assim o individuo mais longe.

Mais uma vez a arte apresenta-se como uma forma de comunicação que nos permite conhecer a realidade, o mundo e que permite a busca da verdade.

O ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 é um exemplo que está muito presente em Nobreza de Espirito. Este ataque, visto por muitos como sendo contra a civilização ocidental, no entanto alguns intelectuais consideram-no como um ataque à América.

Sendo a América um país sem historia e sem cultura, o ataque devia ser visto como uma critica.

O conceito de civilização foi definido por Condorcet como “uma sociedade que não precisa de violência nenhuma para introduzir mudanças politicas.” e para John Millar como “a nobreza de costumes que é a consequência natural da abundancia e da segurança.”

A prosperidade e a segurança são as condições para a civilização existir mas não os valores que delineiam a sua essência. Uma sociedade que dá primazia à propriedade material não tem civilização. Os ataques do 11 de Setembro dirigiram-se a edifícios que simbolizavam prosperidade e segurança. Isto poderá então levar-nos a pensar em ataques como o que foi feito ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, um ataque à liberdade de expressão e a uma sociedade que permite liberdades como essa e que é tão odiada por regimes onde nenhuma liberdade é tolerada.

Sócrates atribuiu aos intelectuais a tarefa de preservar o ideal intemporal da civilização. Esses mesmos intelectuais possuem o dever de “salvaguardar e transmitir o seu conhecimento do que é melhor e mais valioso.”

Para Camus, a existência dos intelectuais era justificada pela sua responsabilidade para com o mundo das ideias e a nobreza de espirito. Para o filósofo francês, estes

Com a politização e a ideia dos seres humanos perfeitos na busca de uma sociedade perfeita a nobreza de espirito foi esquecida. A falta de integridade intelectual é enorme assim como a traição dos intelectuais à nobreza de espirito. Esta traição vem da sedução do poder, de ser ouvido e admirado, e da má fé, a influencia do mundo cientifico vem apoderar-se do mundo intelectual e a linguagem da objetividade leva à perda do sentido do espirito.

Ginzburg aprendeu com os gregos que a essência da cultura era o desenvolvimento da alma humana. Tomava como seu dever intelectual transmitir aquilo que seria o melhor da herança cultural europeia nas suas publicações.

Já Herzen acreditava na liberdade como condição essencial para a existência de cultura. A proibição da cultura tornava a liberdade em algo sem sentido. O filosofo russo defendia que a seria a liberdade que permitiria aos indivíduos cultivarem as suas almas para se tornarem modelos da dignidade humana.

Nestes e noutros exemplos que nos são dados por Rob Riemen ao longo de toda a obra que a nobreza de espirito foi sendo ignorada ao longo dos tempos para dar lugar aos interesses particulares de cada um. A ganancia e o desejo de poder dos indivíduos levou a que, em diversos períodos da história, estes agissem de formas que vão contra a ideia de civilização e de moral. Na sociedade atual a nobreza de espirito é algo que não consta na vida daqueles que regulam a nossa sociedade. Vivemos numa sociedade de massas em que ninguém pensa por si, em que a busca pela verdade e pela essência vai desaparecendo no meio de indivíduos que desempenham um papel passivo na sua vida. As ideologias do terror vão tomando conta, o medo é proliferado diariamente e o respeito pela vida e pela dignidade humana praticamente não existe. Os problemas da sociedade são ignorados quando valores – monetários – mais altos se levantam. Não nos é possível acreditar em tudo o que nos é dito pois na sua maioria a informação que chega até nós está controlada por aquilo que querem que acreditemos, a versão da verdade em que devemos acreditar para que nos comportemos da forma que mais interessa.

A nobreza de espirito escasseia e o ser humano afasta-se da sua cultura e dos seus valores tornando-se apenas mais um membro da sociedade e enquanto não regressar à educação do seu espirito e à sua valorização talvez não consigamos avistar dias melhores para o mundo em que vivemos.