Ser europeu…

“É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que «a vida não refletida» não é efetivamente digna de ser vivida” – George Steiner, “A Ideia de Europa”

A Europa atravessa, atualmente, um período algo conturbado. A crise dos refugiados provenientes da Síria que atravessam diariamente o Mar Egeu em direção à Grécia e os atentados terroristas em França e na Bélgica têm vindo a agitar o velho continente.

Estes acontecimentos têm levantado diversas questões que colocam em causa a “ideia de Europa”. Ao lermos a obra de George Steiner intitulada, precisamente, “A Ideia de Europa” encontramos as mais variadas ideias que nos remetem precisamente para o período que estamos agora a viver.

O continente europeu é a casa do conhecimento, dos grandes pensadores, das descobertas. É onde encontramos “recursos densamente distribuídos de inteligência, de sensibilidade, de memória, de imaginação e de criatividade” (Durão Barroso em Steiner, 2006, p. 7)

Vivemos da história, da cultura, daquilo de que somos feitos. Como tal, temos também na nossa génese a liberdade e a diferença. A ideia de que a cultura europeia tem as suas raízes em Atenas e Jerusalém mostra perfeitamente que este continente é pautado pela diversidade. O Homem europeu é de si influenciado por povos diferentes, com culturas e mentalidades distintas.

“Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (Steiner, 2006, p. 36)

O lema da União Europeia é, justamente, “Unidade na Diversidade”, França tem como máxima “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Segundo Durão Barroso, no prefácio deste livro, a liberdade e a diferença são condição e garantia da diversidade na Europa, tal constitui um trunfo na idade da globalização em que nos encontramos.

Mas, apesar de a “ideia de europa” assentar originalmente nesta harmonia, o continente tem vivenciado alguns dos mais negros e conturbados períodos da história. O holocausto, por exemplo, é só por si um dos maiores (se não o maior) ataque à diferença e à liberdade.

Estes “ódios étnicos” não são apenas algo do passado, um pedaço de história. Os acontecimentos recentes são prova disso. A crise dos refugiados, por exemplo, demonstra o quanto o homem europeu pode ser preconceituoso. Se por um lado são muitos aqueles que se mostram solidários e recetivos ao acolhimento destes migrantes, vários também se insurgem contra utilizando argumentos raciais e religiosos considerando que estes apresentam um perigo para todos.

Outro exemplo são os ataques terroristas que tanto têm atormentado a europa ocidental nos últimos tempos. O extremismo islâmico, que se baseia numa interpretação muito especifica da sua religião, atenta à liberdade dos povos com cujos ideias não concorda. Neste caso não existe qualquer tipo de aceitação pela diferença e pela diversidade, os ideais base da Europa.

Estes episódios, chamemos-lhes assim, vêm criar uma intolerância, uma repudia e um cada vez maior afastamento da ideia de europa diversificada e multicultural.

Uma possível regeneração da Europa, dos seus antigos ideais, uma fuga à americanização recorrente, pode ter em si mesma “o privilégio imperativo de produzir um humanismo secular” (Steiner, 2006, p. 52) para que, eventualmente, possamos dizer que vivemos unidos na diversidade.

 

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