Somos todos Polegarzinhos

“Without us even realizing it, a new kind of human being was born in the brief period of time that separates us from the 1970s.” (Serres, 2015, p. 7)

A sociedade está em constante mudança. De dia para dia o mundo avança, algo novo surge, alguma coisa se transforma. O próprio ser humano tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos tornando-se praticamente inconfundível face aos seus antepassados.

Os indivíduos de hoje em dia, como considera Michel Serres na obra Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials, não habitam no mesmo mundo global que os seus pais ou avós, convivem diariamente com pessoas de diversos pontos do mundo, de culturas diferentes, menos influentes e com experiencias de vida completamente diferentes das suas. A própria sociedade em que vivem é caracterizada pelo multiculturalismo. São seres afortunados. Nunca viveram em tempos de guerra, fome extrema ou doenças virais. Não conhecem a vida rustica, os animais do campo, a agricultura. Sabemos até que em muitos casos, os jovens atuais nunca, durante toda a sua vida, entram em contacto com estas realidades, limitando-se a conhecer os alimentos como se encontram nos supermercados. No entanto, poluem menos do que os seus antepassados pois possuem uma maior consciência ambiental.

Estão formatados pelos media e a sua capacidade de atenção está deformada pela redução da duração das imagens a 7 segundos. São confrontados diretamente com a morte e as imagens destes senários passa por eles a toda a hora. A publicidade tolda-lhes também o pensamento e controla os seus dias e as suas vivências. Os media tomaram a função de ensinar, tornando-se mais influentes do que os próprios professores.

Estes “novos seres”, representados por Thumbelina, habitam num mundo virtual, colados aos tablets e smartphones. As ciências cognitivas mostram que usar a internet, ler e escrever mensagens, consultar a Wikipedia e o Facebook não estimula os mesmos neurónios ou as mesmas zonas do cérebro do que um livro, um quadro de giz, ou um caderno. O que nos indica o quão diferentes os millennials são, até a nível cognitivo.

Conseguem manipular vários tipos de informação ao mesmo tempo, no entanto não a conseguem entender nem sintetizar da mesma forma que os seus antecessores faziam.

Têm acesso a todas as pessoas, a todos lugares, a todo o conhecimento de forma imediata e praticamente automática. São seres globais que não têm a mesma esperança de vida, não comunicam da mesma forma, nem percecionam o mundo do mesmo modo.

Escrevem de forma diferente e vão ficar cada vez mais distantes da língua que se fala agora e que muda a uma velocidade estonteante.

São seres muito sociais, não se mantêm para si próprios e interagem com toda a gente, próximo ou distante, conhecido ou não. Quase toda a população usa o Facebook, o que veio trazer esta possibilidade de proximidade.

O conhecimento foi-se objetificando. Está disponível na web para todos e qualquer um pode aceder a todo em qualquer momento.

A comunicação já não está circunscrita a um espaço onde um fala e outro ouve. É possível falar de nossa casa para qualquer sitio sem termos de sair.

Vivem numa nova economia onde não é preciso lembrarem-se de pormenores como uma localização pois basta uma pesquisa na web para que o problema seja resolvido.

Os alunos millennials não querem que se lhes repita o que já foi escrito há muito tempo. Não se interessam sequer por acontecimentos que não vivenciaram e que estão longe da sua realidade.

Não querem só ouvir, querem discutir. É quase impossível ensinar de forma tradicional. Estes não se limitam a aceitar, questionam.

“In the sanctuary, there are no priests; in church, everyone is a preacher;” (Serres, 2015, p. 35)

Todos sabem, todos querem e podem ser ouvidos.

E ouvi-los é muito importante. Não só o que dizem mas também, e como diz Serres, ao barulho de fundo que produzem.

Estes novos públicos representam um desafio para os profissionais de RP. A forma como se comunica com os mesmos não é igual à utilizada para chegar às gerações anteriores.

Estão de tal forma ligados às novas tecnologias e aos social media que os canais tradicionais já não são suficientes. Não ouvem o que lhes é dito, muitas vezes, se o assunto não lhes despertar particular interesse.

Utilizam o computador para tudo. Toda a informação de que necessitam estão ali ao seu dispor a qualquer instante.

São muito mais exigentes. Como têm tanta coisa ao seu dispor dificilmente ficam satisfeitos.

Não dão especial atenção às “velhas” fontes ditas oficiais pois encontram aquilo que procuram em qualquer site na internet e é essa e informação que consideram válida. E este é um dos grandes obstáculos que se coloca aos profissionais de RP na comunicação com estes públicos. Aquilo que ouvem/leem acerca de uma qualquer organização foge ao controlo da mesma.

As “vozes” ouvidas por estes públicos são as que provêm dos media, dos anúncios e, em grande parte, dos blogs e dos social media.

Tudo é partilhado. Qualquer ideia ou opinião que os millennials tenham é rapidamente difundida nos seus social media o que, apesar de ser um potencial problema por poderem dizer o que querem acerca de qualquer coisa, facilita também a tarefa de aferir aquilo que pensam.

Os millennials são um público diferente e o porquê é facilmente identificável em Thumbelina. São seres totalmente diferentes e em constante mutação. Saber comunicar com eles é uma capacidade que os profissionais de Relações Públicas têm de readaptar à velocidade do seu desenvolvimento.

É preciso inovar, inventar, apresentar novidades. Só assim será possível chamar a atenção de uma geração que já tem tudo na ponta dos dedos.

Serres, M. (2015). Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials. Londres: Rowman & Littlefield.

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