Comunicar é…

co·mu·ni·car – Conjugar
(latim communico, -are, pôr ou ter em comum, repartir, dividir, reunir, misturar, falar, conversar)

verbo transitivo

  1. Pôr em comunicação.
  2. Participar, fazer saber.
  3. Pegar, transmitir.

verbo intransitivo

  1. Estar em comunicação.
  2. Corresponder-se.

verbo pronominal

  1. Propagar-se.
  2. Transmitir-se.

“comunicar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/comunicar [consultado em 06-10-2016].

Comunicar é muito mais do que um simples conceito. É algo intrínseco ao ser humano e sem o qual este não pode viver. Tudo aquilo a que ao Homem diz respeito está dependente da capacidade de comunicar e é impossível não o fazer.

Consideram-se dois tipos de comunicação: a comunicação verbal (escrita ou oral) e a comunicação não-verbal (composta por gestos, postura, expressões…). Mas a comunicação não se limita à transmissão de informação, não é um produto mas sim um processo. É através desta que se constroem e densificam relações, que se resolvem conflitos, e até se discute a própria comunicação – metacomunicação: capacidade de comunicar sobre a dinâmica da comunicação entre interlocutores (Conceição, 2016).

O processo comunicativo é constituído por uma série de questões e conceitos que o caracterizam. Muitos desses temas são abordados na obra Metadiálogos de Gregory Bateson.

Metadiálogos é uma compilação de algumas conversas entre Bateson e a sua filha Mary Catherine onde estes discutem alguns assuntos problemáticos ao longo de sete capítulos, cada um deles abordando metaforicamente uma temática diferente da comunicação.

Metadiálogo: conversa acerca dum assunto problemático. (Bateson, 1972)

Logo no primeiro metadiálogo, “Porque é que as coisas de desarrumam?”, deparamo-nos com uma das características da comunicação, a atribuição de múltiplos significados às coisas. Um termo pode significar coisas diferentes para diferentes pessoas. Neste caso é dado o exemplo da arrumação. Aquilo que é “arrumado” para uma pessoa não é necessariamente para outra. Existem inúmeras opções para aquilo que se pode considerar, neste caso, arrumado. Este conceito difere de pessoa para pessoa. No entanto, para cada individuo existem mais maneiras a que chamam “desarrumadas” do que “arrumadas”.

Aqui podemos encontrar um conceito recorrente na comunicação: a entropia (medida da desordem ou da imprevisibilidade da informação).

A comunicação está recheada de imprevisibilidade. Existe um grande numero de possibilidades para aquilo que pode acontecer. Como no exemplo dado também sobre o que acontece nos filmes em que as letras estão todas misturadas em cima de uma mesa e que ao abaná-la se organizam com mais ordem e significado numa palavra com sentido em vez de ficarem mais misturadas. Uma situação com elevado grau de entropia pois as tais letras podem criar infinitas “palavras”.

A comunicação não é só verbal, comunicamos com todo o nosso corpo e até mesmo quando não o queremos fazer. No metadiálogo “Porque é que os Franceses mexem muito os braços?”, a filha de Bateson considera que os Franceses, ao gesticularem tanto, parecem todos muito excitados e questiona se, no entanto, estarão todos realmente tão excitados quanto parece. Temos aqui um bom exemplo daquilo que é a comunicação não verbal. Todos os indivíduos mexem-se quando falam, uns mais outros menos, quer se apercebam do que estão a fazer quer não. Aquilo que cada um sente ou pretende transmitir ao fazê-lo difere de um para outro. Quando um francês mexe os braços diz ao seu interlocutor qualquer coisa do que sente a seu respeito – que não está zangado ou que está bem-disposto. Mas não é só fisicamente que se dá a comunicação não-verbal. O tom de voz, a expressão facial, o olhar, a postura, são todas formas de comunicar. Até o silêncio comunica algo, como podemos ver no exemplo em que quando o pai vai à pesca e a filha lhe pergunta se apanhou alguma coisa o silencio deste diz que não gosta que se metam com ele a respeito dos peixes que não pescou.

Os dois tipos de linguagem existem em simultâneo, e podem até por vezes transmitir informação contraditórias quando, por exemplo, dizemos que estamos bem mas na verdade a nossa expressão mostra que estamos tristes.

“O ponto é que não existem nenhumas ‘simples palavras’. Só há palavras com gestos, ou tom de voz, ou coisa do género. Mas, evidentemente, gestos sem palavras são frequentes.” (Bateson, 1972, p. 25)

Em “Acerca dos jogos e de se ser sério” encontramos a ideia de que “parece que uma conversa é um ‘jogo’ se uma pessoa toma parte nela com um dado conjunto de emoções ou de ideias, mas não é um jogo se essas ideias ou emoções forem diferentes.” (Bateson, 1972, p.31). Um jogo como uma construção de blocos feita por uma criança, que por ser um jogo não deixa de ser sério, não deixa de se chegar a algum lado. Através das conversas, como as entre Bateson e Catherine, é possível clarificarem-se algumas ideias e as até confusões ajudam nisso. Para ter pensamentos novos é preciso separar todas as ideias pré-existentes que se tem e misturar todos os seus pedaços outra vez.

As conversas, tal como os jogos, têm regras. Nem sempre conhecidas, mas sempre presentes, mesmo que algumas das vezes sejam controladas, ou contornadas, por um dos membros. “Há regras a respeito de como as ideias de mantêm de pé e de como se suportam umas às outras.” (Bateson, 1972, p.33) Regras a que, segundo Bateson, temos de nos agarrar para que quando surge a confusão não nos tornemos loucos.

É através da comunicação que se desenvolve o conhecimento. No 4º metadiálogo, “Pai, quanto é que tu sabes?” considera-se o conhecimento como um tricô em que cada peça só faz sentido ou é útil por causa de todas as outras peças que se entrelaçam umas nas outras. O conhecimento é um dos conceitos difíceis de quantificar. Não é fácil perceber o que é realmente o conhecimento porque é algo que difere de pessoa para pessoa. Há tipos diferentes de conhecimento e há conhecimentos acerca do conhecimento. Tal como a comunicação e a metacomunicação, respetivamente.

A comunicação tem uma estrutura que nem sempre é visível. As conversas são estruturadas, têm sequências (como por exemplo, o turn-taking – a ordem em que os interlocutores participam). No metadiálogo “Porque é que as coisas têm contornos?” fala-se em dar contornos a algo quando desenhamos, que como numa conversa, é a estrutura. Nas conversas, os contornos não são visíveis durante a mesma e são apenas perecíveis de ser analisados após a mesma. Se fosse possível ver os contornos durante uma conversa a mesma tornar-se-ia previsível. Na comunicação existe confusão e imprevisibilidade, mesmo que se tente remediá-las e impor regras.

A comunicação está pautada por dúvidas sobre questões complexas como o que é a arte ou a poesia. Estes são conceitos de difícil definição pois a conceção de estética diverge entre os seres humanos. Uma das dificuldades prende-se com o facto de não se saber o que significa “espécie de”. Em “E porquê um cisne?” é apresentado o exemplo do ballet Petrushka, da bailarina em cima do palco e da indecisão sobre se esta se assemelha a uma boneca ou a um cisne, uma “espécie de coisa humana” ou uma “espécie de cisne”. Nenhum deles é realmente a coisa, não pertence a nenhum grupo em particular. Como é aqui considerado por Bateson, ma “espécie de” é uma relação entre algumas ideias que se tem sobre umas coisas e algumas ideias que se tem sobre outras coisas. Comunicar é também a construção de conceitos, de ligações, de simbolismos que remetam para algo.

O processo de comunicar é algo que tem sido estudado academicamente ao longo dos anos. O ultimo dos metadiálogos, “O que é um instinto?”, é, como dia Carlos Henriques de Jesus, académico. Na tentativa de entender o que é um instinto são nos apresentadas as ideias de hipótese e principio explanatório. Enquanto que uma hipótese é uma tentativa de explicar algo em particular, um principio explanatórios não explica nada em concreto sendo apenas um consenso convencional entre os cientistas para que possam parar de explicar coisas. Esta ideia pode-nos remeter para a natureza da teoria e a diferença entre teoria (explicação) e modelo (representação).

A linguagem e as ferramentas são apresentadas como a grande diferença entre as pessoas e os animais. Possuem, inevitavelmente, uma finalidade e para a atingir são utilizadas ferramentas. Cada coisa que impossibilite atingi-la é um obstáculo. A linguagem é considerada como “estrada real” para a objetividade e para a consciência, elementos importantes para a capacidade de comunicar.

O processo de comunicação encontra-se também repleto de recursos como a ironia e sarcasmo, mesmo que estes não sejam explicitados pelos interlocutores aquando da sua utilização (quando as pessoas a conversar estão a ser irónicas não dizem que o estão a ser, é algo que se denota). Estes recursos são características exclusivamente humanas.

Já a utilização de opostos não é exclusiva do Homem. Neste metadiálogo final é dado o exemplo de um cachorrinho quando se deita de costas e apresenta a barriga a um cão maior. “É uma espécie de convite para o cão grande atacar. Mas funciona de maneira oposta. Evita que o cão grande ataque.” (Bateson, 1972, p. 88). Aquilo que é demonstrado nem sempre corresponde àquilo que realmente se quis dizer.

Entre dois amigos, lutar a brincar pode ser uma maneira de mostrar amizade mas pode também ocorrer o caso de se interpretar mal a situação e começarem a lutar.

O “Não” faz parte da linguagem verbal e não existe nenhum sinal de ação para “não”. Esta questão encontra-se presente no axioma 4 da pragmática da comunicação – a linguagem não verbal não tem negação, uma das dificuldades que se apresenta na tradução da linguagem analógica para a linguagem digital.

Comunicar é… tudo.

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