Rethinking the Enterprise

O paradigma empresarial atual está marcado pelo foco extremo nos resultados e na geração de lucro. Isto acontece de tal forma que o futuro do planeta e das gerações é posto em causa todos os dias. As organizações, em parte, deixaram de se preocupar com o bem da sociedade e não olham a meios para atingir o seu fim principal, o lucro.

Em Rethinking the Enterprise Philippe de Woot apresenta-nos o estado da economia contemporânea e os seus perigos para a sociedade enquanto nos tenta alertar para a urgente necessidade de uma revolução.

As empresas são o grande potenciador da criatividade económica e técnica. Como tal, acredita-se que servem, quase de forma automática, o bem comum através da “mão invisível”. Contribuem para a criação de riqueza e de emprego, sim, mas contribuirão atualmente para o progresso? Será que o facto de mediarem a ciência e a tecnologia faz com que participem realmente no processo evolutivo?

Nos dias que correm a economia tem se distanciado cada vez mais da ética e da politica. A par de um crescimento económico e de uma criação de riqueza sem igual aumentam também as desigualdades sociais, a pobreza, as injustiças e a desintegração social.  O planeta está a ser ameaçado em larga escala e o futuro encontra-se bastante comprometido. Face a tudo isto De Woot começa por colocar em causa a aceitação politica e moral do modelo económico em vigor.

O seculo 21 apresenta inúmeros desafios – o desenvolvimento sustentável, a abertura dos mercados e das sociedades, o aumento do emprego… – que precisam de resposta urgente. É preciso pensar em como podemos então reorganizar a criatividade das empresas de forma a responder a estes problemas.

Enquanto aumenta a riqueza, o mercado cria maior distanciamento entre ricos e pobres. A globalização também cria e acentua desigualdades, nomeadamente entre homens e mulher.

As empresas são o principal agente do sistema económico e dado o enorme poder que possuem têm também inúmeras responsabilidades entre elas tentar dar resposta às necessidades da sociedade. Em Rethinking the Enterprise encontramos o espirito de empresa, a criatividade e a inovação como respostas necessárias aos desafios que o mundo enfrenta.

As empresas têm de funcionar como stakeholders em conjunto com as autoridades e as forças sociais para que as mudanças realmente aconteçam.

As empresas estão em constante processo de mudança, atualizam-se e criam ovos produtos e serviços que ora substituem ora melhoram aqueles que já oferecem. A inovação e criatividade são características essenciais para a transformação do modelo económico que apesar de ter promovido o desenvolvimento começa agora a não ser capaz de responder às necessidades sociais.

As corporações têm um grande poder sobre o desenvolvimento de países e regiões o que levanta questões acerca das suas responsabilidades sociais e do papel que têm no desenvolvimento.

A área cientifico-tecnológica tem uma enorme representação a nível monetário para a economia mas também a nível social podendo tanto ajudar quem mais precisa como prejudicar gravemente o planeta. A economia funciona de um modo em que o que interessa é o aproveitamento dos recursos e aquilo que estes trarão em termos de benefícios. Não se baseia em valores. Se existe a possibilidade de criar muito dinheiro sendo irresponsável então essa irresponsabilidade é tida como justificada. O foco está na rentabilidade e não nos comportamentos éticos. Se der lucro a ética pode ficar de fora.

Existem até muitas empresas que consideram as CSR como algo que lhes possa trazer benefícios, longe da ética e da ideia de solidariedade. Acreditar que a contribuição das empresas para o bem comum assenta no facto de criarem riqueza e emprego não é suficiente. O seu poder é imensamente mais extenso.

O futuro do planeta e da sociedade está em risco e estamos a acabar com os recursos que temos demasiado rápido. O desgaste dos recursos e a poluição não são culpa exclusiva das empresas mas as necessidades económicas contribuem muito para tal. É então importante que as empresas passem a agir de acordo com a ideia de que têm um enorme poder para deixarem de ser parte do problema e se tornarem parte da solução.

As empresas podem ter aqui um papel muito importante se adotarem uma cultura responsável. Não conseguirão fazê-lo sozinhas. Serão, no entanto, um importante agente participativo em conjunto com os restantes órgãos sociais e políticos.

É preciso restaurar a dimensão ética e politica da economia e repensar o propósito das empresas. É indispensável colocar as operações das empresas num contexto de ética e bem comum sem os quais esta não poderá ter legitimidade politica ou moral.

Têm a responsabilidade de aplicar a sua criatividade de modo a que sirva para o bem comum e que tenha significado. É essencial orientar a criatividade para que leve ao progresso e não se centre exclusivamente no lucro.

O lucro não pode ser o propósito da empresa. É preciso mudar não a estrutura mas sim a cultura das organizações. A cultura são os genes da organização, incluindo os valores que guiam a sua ação. Assim sendo, é crucial que a ética esteja aqui bem presente.

Algumas empresas já o fazem, é o seu soft power.

As dimensões politica e ética são essenciais para guiar o comportamento da organização. As empresas têm de ter consciência das consequências dos seus atos e da influência que estes poderão ter nos outros e na sociedade.

As empresas têm de pensar no tipo de mundo que estamos a construir e em qual a contr

Proposta de desenvolvimento sustentável  – atingir as necessidades do presente sem comprometer o futuro

A nível politico as empresas tem de entrar no debate acerca de uma proposta de desenvolvimento sustentável – de modo a atingir as necessidades do presente sem comprometer o futuro – em conjunto com os restantes stakeholders da sociedade.

“Ethics ‘by interest’ is not ethics” – p.66

As empresas não podem simplesmente dizer que atuam no âmbito da Corporate Social Responsability ou limitar esta atuação a apenas alguns setores. Se esta estiver presente apenas em algumas práticas e não na cultura e nas atitudes da organização então não tem efeito transformador.

Neste caso, e no que às relações públicas diz respeito não basta “fazer o bonito”.

Do ponto de vista da liderança são precisos lideres capazes de guiar a mudança cultural, de gerar motivação. Lideres que oiçam e se preocupem, que sejam responsáveis pelas atitudes assegurando a consistência com os valores. Respeitar as pessoas e o bem comum tornando-se um líder ético. Construtor da consciência

As empresas, e claro os seus lideres, devem desenvolver a ética no seu core.

Outra questão essencial é a criação da corporate citizenship. Uma organização que desenvolva a sua cultura politica, que participe nas discussões da comunidade para o bem-comum, nos debates e assuma a sua responsabilidade politica.

Todas estas questões encontram-se, em parte, sob a alçada das relações públicas. Através do desenvolvimento de uma cultura com base na ética, dando a devida importância à responsabilidade sem que esta se limite a uma fachada para “parecer bem”. Os profissionais de relações públicas terão aqui um papel de extrema importância na medida em que é necessário trabalhar a participação das empresas na sociedade em coadunação com os valores estabelecidos. As organizações como cidadãs envolve um trabalho não só a nível de comunicação e de apoio social mas também de transformação da cultura e do seu posicionamento. Para além de tudo isto, faz também de certo modo parte das responsabilidades das relações públicas a garantia da legitimidade das empresas pois só assim estas conseguirão ter um verdadeiro impacto na sociedade.

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Ser europeu…

“É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que «a vida não refletida» não é efetivamente digna de ser vivida” – George Steiner, “A Ideia de Europa”

A Europa atravessa, atualmente, um período algo conturbado. A crise dos refugiados provenientes da Síria que atravessam diariamente o Mar Egeu em direção à Grécia e os atentados terroristas em França e na Bélgica têm vindo a agitar o velho continente.

Estes acontecimentos têm levantado diversas questões que colocam em causa a “ideia de Europa”. Ao lermos a obra de George Steiner intitulada, precisamente, “A Ideia de Europa” encontramos as mais variadas ideias que nos remetem precisamente para o período que estamos agora a viver.

O continente europeu é a casa do conhecimento, dos grandes pensadores, das descobertas. É onde encontramos “recursos densamente distribuídos de inteligência, de sensibilidade, de memória, de imaginação e de criatividade” (Durão Barroso em Steiner, 2006, p. 7)

Vivemos da história, da cultura, daquilo de que somos feitos. Como tal, temos também na nossa génese a liberdade e a diferença. A ideia de que a cultura europeia tem as suas raízes em Atenas e Jerusalém mostra perfeitamente que este continente é pautado pela diversidade. O Homem europeu é de si influenciado por povos diferentes, com culturas e mentalidades distintas.

“Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (Steiner, 2006, p. 36)

O lema da União Europeia é, justamente, “Unidade na Diversidade”, França tem como máxima “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Segundo Durão Barroso, no prefácio deste livro, a liberdade e a diferença são condição e garantia da diversidade na Europa, tal constitui um trunfo na idade da globalização em que nos encontramos.

Mas, apesar de a “ideia de europa” assentar originalmente nesta harmonia, o continente tem vivenciado alguns dos mais negros e conturbados períodos da história. O holocausto, por exemplo, é só por si um dos maiores (se não o maior) ataque à diferença e à liberdade.

Estes “ódios étnicos” não são apenas algo do passado, um pedaço de história. Os acontecimentos recentes são prova disso. A crise dos refugiados, por exemplo, demonstra o quanto o homem europeu pode ser preconceituoso. Se por um lado são muitos aqueles que se mostram solidários e recetivos ao acolhimento destes migrantes, vários também se insurgem contra utilizando argumentos raciais e religiosos considerando que estes apresentam um perigo para todos.

Outro exemplo são os ataques terroristas que tanto têm atormentado a europa ocidental nos últimos tempos. O extremismo islâmico, que se baseia numa interpretação muito especifica da sua religião, atenta à liberdade dos povos com cujos ideias não concorda. Neste caso não existe qualquer tipo de aceitação pela diferença e pela diversidade, os ideais base da Europa.

Estes episódios, chamemos-lhes assim, vêm criar uma intolerância, uma repudia e um cada vez maior afastamento da ideia de europa diversificada e multicultural.

Uma possível regeneração da Europa, dos seus antigos ideais, uma fuga à americanização recorrente, pode ter em si mesma “o privilégio imperativo de produzir um humanismo secular” (Steiner, 2006, p. 52) para que, eventualmente, possamos dizer que vivemos unidos na diversidade.

 

Somos todos Polegarzinhos

“Without us even realizing it, a new kind of human being was born in the brief period of time that separates us from the 1970s.” (Serres, 2015, p. 7)

A sociedade está em constante mudança. De dia para dia o mundo avança, algo novo surge, alguma coisa se transforma. O próprio ser humano tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos tornando-se praticamente inconfundível face aos seus antepassados.

Os indivíduos de hoje em dia, como considera Michel Serres na obra Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials, não habitam no mesmo mundo global que os seus pais ou avós, convivem diariamente com pessoas de diversos pontos do mundo, de culturas diferentes, menos influentes e com experiencias de vida completamente diferentes das suas. A própria sociedade em que vivem é caracterizada pelo multiculturalismo. São seres afortunados. Nunca viveram em tempos de guerra, fome extrema ou doenças virais. Não conhecem a vida rustica, os animais do campo, a agricultura. Sabemos até que em muitos casos, os jovens atuais nunca, durante toda a sua vida, entram em contacto com estas realidades, limitando-se a conhecer os alimentos como se encontram nos supermercados. No entanto, poluem menos do que os seus antepassados pois possuem uma maior consciência ambiental.

Estão formatados pelos media e a sua capacidade de atenção está deformada pela redução da duração das imagens a 7 segundos. São confrontados diretamente com a morte e as imagens destes senários passa por eles a toda a hora. A publicidade tolda-lhes também o pensamento e controla os seus dias e as suas vivências. Os media tomaram a função de ensinar, tornando-se mais influentes do que os próprios professores.

Estes “novos seres”, representados por Thumbelina, habitam num mundo virtual, colados aos tablets e smartphones. As ciências cognitivas mostram que usar a internet, ler e escrever mensagens, consultar a Wikipedia e o Facebook não estimula os mesmos neurónios ou as mesmas zonas do cérebro do que um livro, um quadro de giz, ou um caderno. O que nos indica o quão diferentes os millennials são, até a nível cognitivo.

Conseguem manipular vários tipos de informação ao mesmo tempo, no entanto não a conseguem entender nem sintetizar da mesma forma que os seus antecessores faziam.

Têm acesso a todas as pessoas, a todos lugares, a todo o conhecimento de forma imediata e praticamente automática. São seres globais que não têm a mesma esperança de vida, não comunicam da mesma forma, nem percecionam o mundo do mesmo modo.

Escrevem de forma diferente e vão ficar cada vez mais distantes da língua que se fala agora e que muda a uma velocidade estonteante.

São seres muito sociais, não se mantêm para si próprios e interagem com toda a gente, próximo ou distante, conhecido ou não. Quase toda a população usa o Facebook, o que veio trazer esta possibilidade de proximidade.

O conhecimento foi-se objetificando. Está disponível na web para todos e qualquer um pode aceder a todo em qualquer momento.

A comunicação já não está circunscrita a um espaço onde um fala e outro ouve. É possível falar de nossa casa para qualquer sitio sem termos de sair.

Vivem numa nova economia onde não é preciso lembrarem-se de pormenores como uma localização pois basta uma pesquisa na web para que o problema seja resolvido.

Os alunos millennials não querem que se lhes repita o que já foi escrito há muito tempo. Não se interessam sequer por acontecimentos que não vivenciaram e que estão longe da sua realidade.

Não querem só ouvir, querem discutir. É quase impossível ensinar de forma tradicional. Estes não se limitam a aceitar, questionam.

“In the sanctuary, there are no priests; in church, everyone is a preacher;” (Serres, 2015, p. 35)

Todos sabem, todos querem e podem ser ouvidos.

E ouvi-los é muito importante. Não só o que dizem mas também, e como diz Serres, ao barulho de fundo que produzem.

Estes novos públicos representam um desafio para os profissionais de RP. A forma como se comunica com os mesmos não é igual à utilizada para chegar às gerações anteriores.

Estão de tal forma ligados às novas tecnologias e aos social media que os canais tradicionais já não são suficientes. Não ouvem o que lhes é dito, muitas vezes, se o assunto não lhes despertar particular interesse.

Utilizam o computador para tudo. Toda a informação de que necessitam estão ali ao seu dispor a qualquer instante.

São muito mais exigentes. Como têm tanta coisa ao seu dispor dificilmente ficam satisfeitos.

Não dão especial atenção às “velhas” fontes ditas oficiais pois encontram aquilo que procuram em qualquer site na internet e é essa e informação que consideram válida. E este é um dos grandes obstáculos que se coloca aos profissionais de RP na comunicação com estes públicos. Aquilo que ouvem/leem acerca de uma qualquer organização foge ao controlo da mesma.

As “vozes” ouvidas por estes públicos são as que provêm dos media, dos anúncios e, em grande parte, dos blogs e dos social media.

Tudo é partilhado. Qualquer ideia ou opinião que os millennials tenham é rapidamente difundida nos seus social media o que, apesar de ser um potencial problema por poderem dizer o que querem acerca de qualquer coisa, facilita também a tarefa de aferir aquilo que pensam.

Os millennials são um público diferente e o porquê é facilmente identificável em Thumbelina. São seres totalmente diferentes e em constante mutação. Saber comunicar com eles é uma capacidade que os profissionais de Relações Públicas têm de readaptar à velocidade do seu desenvolvimento.

É preciso inovar, inventar, apresentar novidades. Só assim será possível chamar a atenção de uma geração que já tem tudo na ponta dos dedos.

Serres, M. (2015). Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials. Londres: Rowman & Littlefield.

Comunicar é…

co·mu·ni·car – Conjugar
(latim communico, -are, pôr ou ter em comum, repartir, dividir, reunir, misturar, falar, conversar)

verbo transitivo

  1. Pôr em comunicação.
  2. Participar, fazer saber.
  3. Pegar, transmitir.

verbo intransitivo

  1. Estar em comunicação.
  2. Corresponder-se.

verbo pronominal

  1. Propagar-se.
  2. Transmitir-se.

“comunicar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/comunicar [consultado em 06-10-2016].

Comunicar é muito mais do que um simples conceito. É algo intrínseco ao ser humano e sem o qual este não pode viver. Tudo aquilo a que ao Homem diz respeito está dependente da capacidade de comunicar e é impossível não o fazer.

Consideram-se dois tipos de comunicação: a comunicação verbal (escrita ou oral) e a comunicação não-verbal (composta por gestos, postura, expressões…). Mas a comunicação não se limita à transmissão de informação, não é um produto mas sim um processo. É através desta que se constroem e densificam relações, que se resolvem conflitos, e até se discute a própria comunicação – metacomunicação: capacidade de comunicar sobre a dinâmica da comunicação entre interlocutores (Conceição, 2016).

O processo comunicativo é constituído por uma série de questões e conceitos que o caracterizam. Muitos desses temas são abordados na obra Metadiálogos de Gregory Bateson.

Metadiálogos é uma compilação de algumas conversas entre Bateson e a sua filha Mary Catherine onde estes discutem alguns assuntos problemáticos ao longo de sete capítulos, cada um deles abordando metaforicamente uma temática diferente da comunicação.

Metadiálogo: conversa acerca dum assunto problemático. (Bateson, 1972)

Logo no primeiro metadiálogo, “Porque é que as coisas de desarrumam?”, deparamo-nos com uma das características da comunicação, a atribuição de múltiplos significados às coisas. Um termo pode significar coisas diferentes para diferentes pessoas. Neste caso é dado o exemplo da arrumação. Aquilo que é “arrumado” para uma pessoa não é necessariamente para outra. Existem inúmeras opções para aquilo que se pode considerar, neste caso, arrumado. Este conceito difere de pessoa para pessoa. No entanto, para cada individuo existem mais maneiras a que chamam “desarrumadas” do que “arrumadas”.

Aqui podemos encontrar um conceito recorrente na comunicação: a entropia (medida da desordem ou da imprevisibilidade da informação).

A comunicação está recheada de imprevisibilidade. Existe um grande numero de possibilidades para aquilo que pode acontecer. Como no exemplo dado também sobre o que acontece nos filmes em que as letras estão todas misturadas em cima de uma mesa e que ao abaná-la se organizam com mais ordem e significado numa palavra com sentido em vez de ficarem mais misturadas. Uma situação com elevado grau de entropia pois as tais letras podem criar infinitas “palavras”.

A comunicação não é só verbal, comunicamos com todo o nosso corpo e até mesmo quando não o queremos fazer. No metadiálogo “Porque é que os Franceses mexem muito os braços?”, a filha de Bateson considera que os Franceses, ao gesticularem tanto, parecem todos muito excitados e questiona se, no entanto, estarão todos realmente tão excitados quanto parece. Temos aqui um bom exemplo daquilo que é a comunicação não verbal. Todos os indivíduos mexem-se quando falam, uns mais outros menos, quer se apercebam do que estão a fazer quer não. Aquilo que cada um sente ou pretende transmitir ao fazê-lo difere de um para outro. Quando um francês mexe os braços diz ao seu interlocutor qualquer coisa do que sente a seu respeito – que não está zangado ou que está bem-disposto. Mas não é só fisicamente que se dá a comunicação não-verbal. O tom de voz, a expressão facial, o olhar, a postura, são todas formas de comunicar. Até o silêncio comunica algo, como podemos ver no exemplo em que quando o pai vai à pesca e a filha lhe pergunta se apanhou alguma coisa o silencio deste diz que não gosta que se metam com ele a respeito dos peixes que não pescou.

Os dois tipos de linguagem existem em simultâneo, e podem até por vezes transmitir informação contraditórias quando, por exemplo, dizemos que estamos bem mas na verdade a nossa expressão mostra que estamos tristes.

“O ponto é que não existem nenhumas ‘simples palavras’. Só há palavras com gestos, ou tom de voz, ou coisa do género. Mas, evidentemente, gestos sem palavras são frequentes.” (Bateson, 1972, p. 25)

Em “Acerca dos jogos e de se ser sério” encontramos a ideia de que “parece que uma conversa é um ‘jogo’ se uma pessoa toma parte nela com um dado conjunto de emoções ou de ideias, mas não é um jogo se essas ideias ou emoções forem diferentes.” (Bateson, 1972, p.31). Um jogo como uma construção de blocos feita por uma criança, que por ser um jogo não deixa de ser sério, não deixa de se chegar a algum lado. Através das conversas, como as entre Bateson e Catherine, é possível clarificarem-se algumas ideias e as até confusões ajudam nisso. Para ter pensamentos novos é preciso separar todas as ideias pré-existentes que se tem e misturar todos os seus pedaços outra vez.

As conversas, tal como os jogos, têm regras. Nem sempre conhecidas, mas sempre presentes, mesmo que algumas das vezes sejam controladas, ou contornadas, por um dos membros. “Há regras a respeito de como as ideias de mantêm de pé e de como se suportam umas às outras.” (Bateson, 1972, p.33) Regras a que, segundo Bateson, temos de nos agarrar para que quando surge a confusão não nos tornemos loucos.

É através da comunicação que se desenvolve o conhecimento. No 4º metadiálogo, “Pai, quanto é que tu sabes?” considera-se o conhecimento como um tricô em que cada peça só faz sentido ou é útil por causa de todas as outras peças que se entrelaçam umas nas outras. O conhecimento é um dos conceitos difíceis de quantificar. Não é fácil perceber o que é realmente o conhecimento porque é algo que difere de pessoa para pessoa. Há tipos diferentes de conhecimento e há conhecimentos acerca do conhecimento. Tal como a comunicação e a metacomunicação, respetivamente.

A comunicação tem uma estrutura que nem sempre é visível. As conversas são estruturadas, têm sequências (como por exemplo, o turn-taking – a ordem em que os interlocutores participam). No metadiálogo “Porque é que as coisas têm contornos?” fala-se em dar contornos a algo quando desenhamos, que como numa conversa, é a estrutura. Nas conversas, os contornos não são visíveis durante a mesma e são apenas perecíveis de ser analisados após a mesma. Se fosse possível ver os contornos durante uma conversa a mesma tornar-se-ia previsível. Na comunicação existe confusão e imprevisibilidade, mesmo que se tente remediá-las e impor regras.

A comunicação está pautada por dúvidas sobre questões complexas como o que é a arte ou a poesia. Estes são conceitos de difícil definição pois a conceção de estética diverge entre os seres humanos. Uma das dificuldades prende-se com o facto de não se saber o que significa “espécie de”. Em “E porquê um cisne?” é apresentado o exemplo do ballet Petrushka, da bailarina em cima do palco e da indecisão sobre se esta se assemelha a uma boneca ou a um cisne, uma “espécie de coisa humana” ou uma “espécie de cisne”. Nenhum deles é realmente a coisa, não pertence a nenhum grupo em particular. Como é aqui considerado por Bateson, ma “espécie de” é uma relação entre algumas ideias que se tem sobre umas coisas e algumas ideias que se tem sobre outras coisas. Comunicar é também a construção de conceitos, de ligações, de simbolismos que remetam para algo.

O processo de comunicar é algo que tem sido estudado academicamente ao longo dos anos. O ultimo dos metadiálogos, “O que é um instinto?”, é, como dia Carlos Henriques de Jesus, académico. Na tentativa de entender o que é um instinto são nos apresentadas as ideias de hipótese e principio explanatório. Enquanto que uma hipótese é uma tentativa de explicar algo em particular, um principio explanatórios não explica nada em concreto sendo apenas um consenso convencional entre os cientistas para que possam parar de explicar coisas. Esta ideia pode-nos remeter para a natureza da teoria e a diferença entre teoria (explicação) e modelo (representação).

A linguagem e as ferramentas são apresentadas como a grande diferença entre as pessoas e os animais. Possuem, inevitavelmente, uma finalidade e para a atingir são utilizadas ferramentas. Cada coisa que impossibilite atingi-la é um obstáculo. A linguagem é considerada como “estrada real” para a objetividade e para a consciência, elementos importantes para a capacidade de comunicar.

O processo de comunicação encontra-se também repleto de recursos como a ironia e sarcasmo, mesmo que estes não sejam explicitados pelos interlocutores aquando da sua utilização (quando as pessoas a conversar estão a ser irónicas não dizem que o estão a ser, é algo que se denota). Estes recursos são características exclusivamente humanas.

Já a utilização de opostos não é exclusiva do Homem. Neste metadiálogo final é dado o exemplo de um cachorrinho quando se deita de costas e apresenta a barriga a um cão maior. “É uma espécie de convite para o cão grande atacar. Mas funciona de maneira oposta. Evita que o cão grande ataque.” (Bateson, 1972, p. 88). Aquilo que é demonstrado nem sempre corresponde àquilo que realmente se quis dizer.

Entre dois amigos, lutar a brincar pode ser uma maneira de mostrar amizade mas pode também ocorrer o caso de se interpretar mal a situação e começarem a lutar.

O “Não” faz parte da linguagem verbal e não existe nenhum sinal de ação para “não”. Esta questão encontra-se presente no axioma 4 da pragmática da comunicação – a linguagem não verbal não tem negação, uma das dificuldades que se apresenta na tradução da linguagem analógica para a linguagem digital.

Comunicar é… tudo.

A Influência das Aplicações de Opinião nas Estratégias de Comunicação dos Restaurantes

Num mundo cada vez mais dominado pelas novas tecnologias e pelos social media, é praticamente impossível escapar à sua influencia no dia-a-dia. A universalização do acesso à internet tem trazido consigo a ideia de que todos temos sempre algo a dizer sobre alguma coisa e que o podemos facilmente partilhar com uma quantidade inimaginável de outros indivíduos.

Para além da vontade de partilhar também o desejo por saber sempre mais e estar a par de tudo tem vindo a aumentar. Esta tendência é transversal a inúmeras áreas e a restauração não é exceção. Antigamente, sempre que pretendíamos encontrar um restaurante para visitar a escolha era feita ao acaso, mediante o sitio onde nos encontrávamos, por termos ouvido falar ou, então, através de recomendações feitas por amigos ou conhecidos, pessoas com quem nos relacionávamos pessoalmente. Hoje em dia, esta procura é muitas vezes feita de antemão recorrendo às várias aplicações móveis que têm surgindo com o intuito de facilitar a partilha de restaurantes e experiências gastronómicas. Aplicações como o Yelp, The Fork e Zomato foram criadas para que qualquer um possa pesquisar restaurantes em, praticamente, qualquer parte do mundo e consultar informações acerca dos mesmos antes de os visitar. Nestas plataformas qualquer um pode adicionar a sua opinião sobre os locais que visita e classifica-los mediante a sua apreciação. É através destas avaliações que as nossas escolhas são, não raras vezes, influenciadas. Opiniões negativas podem levar a que pensemos duas vezes antes de visitar um restaurante enquanto que opiniões positivas podem aumentar a nossa curiosidade para o fazer.

Mas não são só os clientes que podem fazer parte destas comunidades. Os restaurantes têm também a possibilidade de recorrer às mesmas para comunicar com o seu público e estreitar a sua relação com estes.

A questão que se coloca é: tendo acesso àquilo que é dito sobre si, de que forma pode a industria da restauração tirar partido dessa informação para a criação das suas estratégias de comunicação?

A facilidade com que os restaurantes podem ter conhecimento acerca das experiências daqueles que os visitam pode ser um ponto de partida para o delinear de estratégias?

E, também, de que forma poderá uma boa/má gestão da sua presença nestas plataformas influenciar o comportamento dos consumidores e a sua relação com o estabelecimento?

Com tudo aquilo que o domínio do mundo digital tem de bom e de mau é importante perceber que a etapa da investigação está a ser progressivamente facilitada. Aquilo que importa saber está a um clique de distância, num “estudo de mercado” em constante desenvolvimento.

Posto isto, tona-se pertinente entender a utilidade destas aplicações para os profissionais de comunicação e o  modo como estas podem mudar a maneira de pensar a sua ação.