Não é um blog nem um diário

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 considerado como um dos grandes pensadores do declínio da civilização. Serviu na Segunda Guerra Mundial pelo exército da União Soviética tendo sido militante do Partido Comunista Polaco nos anos 40 e 50. Começou como professor universitário na Universidade de Varsóvia tendo sido afastado da mesmo por considerem as suas ideias como subversivas no comunismo.

A obra “Isto não é um diário”, publicado em 2012, são reflexões feitas pelo autor de temas que marcaram, e ainda marcam, a sociedade atual com base em noticias de jornais entre setembro de 2010 e março de 2011.

O titulo deste livro remete-nos imediatamente para a ideia de que não se trata de um diário pois, apesar de a sua organização ser feita por dias e todos eles identificados, neste caso aquilo que é escrito pelo autor não se refere à sua vida em especifico ou, exclusivamente a acontecimentos do dia em especifico, mas a assuntos diversos da sociedade.

O autor começa por confessar que não sabe o que irá escrever, nem sobre o quê, limitando-se a fazê-lo por ser aquilo que considera ser para si natural e o que melhor sabe. Escreve por ser para si este o modo de viver a vida, de lidar com o que o rodeia, um prazer. É algo de que precisa e sem o qual não sabe. Crê que o número de coisas sobre as quais já não deve falar estão a aumentar, mas, no entanto, são estas que vale a pena comentar. Considera que as coisas acontecem de forma demasiado rápida para se debruçar sobre um tema de estudo prolongado.

A partir daqui Bauman aborda os mais variados temas. Entre eles encontramos:

As questões ligadas à expulsão dos ciganos em Itália que relaciona com o facto de os homens terem tendência a afastar de si os outsiders, conceito de Norbert Elias, pessoas que não seguem os hábitos e costumes dos “estabelecidos”, considerando que estes representam o perigo e a ameaça. Ideia que se estende à atualidade, não com o povo roma mas com tantos outros. Através destes medos, algumas forças politicas vão ganhando força dando a ideia de que estão a tentar proteger os seus cidadãos, mas estão, na verdade, a alimentar-se do sentimento de insegurança.

A erosão da confiança e o florescimento da arrogância, é o titulo de outra entrada onde o autor reflete sobre a ideia de que é a confiança que sustenta a ordem económica e do perigo de desabamento desta no caso de desaparecer, A confiança nas instituições diminui, numa altura em que as pessoas precisam de alguém bem informado em quem acreditar, estando, no entanto, sob a sombra da possibilidade de fraude. As mentiras e os engodos são algo que é quase considerado normal e pelo qual se passa no dia a dia sem estranheza tal é o seu embrenhamento na vida social. Para Bauman é preciso tentar acreditar para “recuperar a nossa confiança na possibilidade da verdade…” (p. 48)

O conceito de cultural como algo distintivo e orientador do destino de cada um, é assim que o autor o apresenta. Bauman reflete acerca do facto de muitos atribuírem às características culturais acontecimentos e factos. É dado um exemplo de pesquisas num jornal opinião feitas no Canadá cujos resultados indicavam uma maior mortalidade em casos de cancro entre os mais pobres ou, pelo menos uma morte mais rápida. Esta ideia era atribuída pelos repórteres ao facto de os mais pobres fumarem mais que os ricos, mais educados. A chama “cultura dos pobres”, os preceitos culturais escolhidos, eram a causa e não outras questões como a subnutrição crónica e as condições de vida inferiores. O autor mostra-nos aqui a tendência da colocação de rótulos culturais aos indivíduos e à descriminação de que são muitas vezes vitimas por serem “diferentes”.

Os jovens e a instabilidade que estes enfrentam. A chamada “geração zero”, sem futuro nem oportunidades. A sua inserção numa sociedade em que a violência e o ódio tendem a controlar e a absorver o mais pacifico dos indivíduos. Os estudantes que saíram para o mercado em quantidades muito superiores às que este tem condições para receber. Enfrentam também as enormes dividas deixadas pelas gerações anteriores e que colocam em causa o seu futuro. Num mundo em que, para o autor, não existe a possibilidade de um “pós-trabalho” pois não deixará de haver consumo verifica-se uma deslocação dos empregos para países com poucas leis e regulamentações que restrinjam a liberdade dos capitalistas e a obrigação dos trabalhadores a aceitarem “salários de sobrevivência” para poderem ter um emprego.

Na América, a terra do sonho, que permitia àqueles que tudo almejavam atingir as suas expectativas, apresenta elevados níveis de desigualdade e uma cada vez maior necessidade de luta pela sobrevivência. A classe média decresce tal como a confiança na igualdade. A terra das oportunidades ganha em agressividade o que lhe falta em igualdade.

As inovações tecnológicas que prometeriam o aumento da nossa rede de conhecimentos e que supostamente nos traria mais amizades contribui para o isolamento. Consegue chegar-se mais longe, manter um grupo considerável de amigos num grupo em constante movimento. A comunicação face a face é substituída pelos dispositivos eletrónicos e tudo parece mais fácil.

Bauman fala-nos também de democracia, da instabilidade deste conceito. Os significados que definem a civilização ocidental têm tendência a alterar-se e a ganhar novos significados que se afastam. Aqueles que seriam os pilarem que sustentavam este ideal civilizacional transformam-se e a democracia inicia a sua descida rumo a uma era “pós-democrática”, com um eleitorado ignorante e que não se importa que se acomodam e deixam de agir perdendo assim a essência fundamental daquilo que seria idealmente este regime.

A sociedade de consumidores em que nos inserimos em que aquilo que realmente importa é a satisfação das necessidades de consumo sem olhar a meios para o fazer. O planeta empobrece à medida em que os indivíduos tentam enriquecer a todo o custo. Aqui, para Bauman, até o próprio estado é capitalista. A sustentabilidade é posta em causa assim como o futuro das gerações vindouras. A perspetiva de limitar o aumento do consumo para poder ambicionar uma salvação para o planeta parece uma visão utópica. Requer então que toda a humanidade tente abraçar a sobrevivência do planeta através do universo das obrigações morais mas tem, ao mesmo tempo, noção de que tal não será fácil.

O fenómeno do Facebook também não passa despercebido a Bauman. Esta rede social, veio trazer a possibilidade de combater a solidão que muitos sentiriam e à qual não conseguiriam escapar pelos meios tradicionais, ou até de se erguerem para além do anonimato e sentirem que são finalmente ouvidos e integrados. Aquilo que se ganha e que se perde com a introdução destas redes depende de cada um e daquilo que procura. Pode ter-se aberto mão de alguma forma da “intimidade” off-line em troca da on-line, mais rápida, sem esforço e, supostamente, com menos riscos. Com o Facebook, e ao contrário do que se possa pensar, não se pertence a uma comunidade mais sim a uma rede, dois conceitos bem distintos. Aquilo que dá significado aos relacionamentos mudou, tal como a ideia de proximidade. O privado e o público tendem também a fundir-se, com a discussão de temas privados na esfera pública e a revelação dos seus detalhes, à frente de todo., dando-se uma rutura na separação dos dois conceitos.  Expõe-se tudo sem pudor e deseja-se saber tudo sobre os outros. Todos se tornam mercadorias numa sociedade de consumo e o próprio Facebook é a montra.

O controlo que se tentar ter sobre os imigrantes advém do facto de se considerar que estes representam um perigo para as sociedades em que tentam entrar. A posição dos países face às pessoas em busca de asilo é cada vez mais rígida. Existe a ideia de que serão estes a implementar o perigo no interior das sociedades e não aqueles que já lá se encontram. O caso é aqui mais avançado do que o acima descrito relativo ao povo roma. A comunidade francesa teme que estes venham colocar os seus estilos de vida em risco. A tolerância face à multiculturalidade e à igualdade é cada vez menor. Bauman apresenta aqui ideias que remetem a Maalouf e à sua obra o “Mundo Sem Regras” ao questionar se o facto de impedir que os indivíduos demonstrem as suas características culturais distintivas exercendo sobre eles pressões culturais conflitantes se apresente como solução para a integração. O autor polaco reforça a ideia de Maalouf de que estas diferenças ao não serem reprimidas poderão contribuir para um maior diálogo intercultural, para o qual é também crucial um sentimento de segurança para as duas partes envolvidas.

A intolerância da ciência à religião, o fornecimento de armas para “combater” armas, a sua massificação e circulação, a desigualdade que coloca em causa o diálogo, o aumento da injustiça social, o colapso das estruturas sociais, representam mais algumas das várias questões abordadas pelo autor ao longo de todo o livro.

Em suma, Zygmunt Bauman fornece-nos ao longo de um espaço de seis meses, entre o outono e a primavera, inúmeras reflexões acerca dos mais variados assuntos. O autor debruça-se sobre alguns dos temas que foram abordados neste blog ao longo dos últimos meses de uma forma bastante interessante e que permite uma visão completiva. A forma como os vários temas nos são introduzidos e apresentados não se limitam a uma exposição de ideias e de opiniões, estas são até pouco explitadas. O que o autor nos oferece é a sua forma de ver os acontecimentos permitindo ao leitor uma reflexão própria. A forma como Bauman nos escreve acerca de temas tão variados, mas que marcam tanto a sociedade atual traz-nos perspetivas bastante interessantes. E, possivelmente, terá sido tudo isto que levou Steven Poole a afirmar que “se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo.”

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A Influência das Aplicações de Opinião na Comunicação dos Restaurantes – II

Antes dos avanços da internet, ao longo dos últimos anos, as organizações conseguiam defender melhor a sua reputação controlando a informação que estava disponível sobre si, através, por exemplo, de bons gestores de relações públicas. Os social media e a world wide web têm atualmente um poder tão forte que a gestão da reputação teve de se expandir ao online. No entanto, este processo não é tão fácil pois as empresas deixaram de ter controlo sobre aquilo que se diz e a sua reputação pode estar em risco. (Dolle 2014)

Os avanços tecnológicos trouxeram também os sites de opinião de consumidores como a Amazon, a Yelp, e a Zomato. Estas plataformas têm um impacto grande tanto nos consumidores como nos negócios. Para os primeiros, funcionam como fontes de informação que ajudam o processo de tomada de decisão enquanto que para os segundos podem ser uma forma de perceber aquilo que os seus públicos pensam de si.  (Parikh et al. 2015)

Numa época em que, com o acesso às novas tecnologias, qualquer um pode ser um critico online, as opiniões ganham uma enorme importância. (Doward, 2012) Está até provado que 80% das pessoas irão pesquisar acerca de um restaurante antes de o visitar pela primeira vez.  (Restaurant App Engines, 2011)

Entre as plataformas de opiniões no ramo da restauração estão algumas das mais famosas como a OpenTable – um serviço que permite a reserva de mesas em restaurantes e a posterior avaliação da experiência incentivado pela aplicação cerca de 24h após a refeição; a Yelp – com cerca de 130 milhões de utilizadores todos os meses e que, apesar de incluir outros serviços, 20% das opiniões deixadas são acerca de restaurantes. O Yelp proporciona também aos negócios a possibilidade de serem alertados por e-mail no caso de ser feita uma avaliação a seu respeito; e a Zomato – uma aplicação móvel, das mais conhecidas no mundo e talvez a mais conhecida em Portugal, que permite encontrar restaurantes e obter informação acerca dos mesmos, e sobre a qual falaremos mais à frente. (Free Review Monitoring, 2015)

Um estudo levado a cabo na Universidade da Califórnia, por Michael Anderson e Jeremy Magruder, tentou perceber a relação entre as avaliações online e as decisões de compra dos consumidores. Para isso focaram-se nos efeitos de avaliações online positivas feitas a 300 restaurantes em São Francisco na plataforma americana Yelp.

Os dois economistas concluíram que o aumento no negócio acontecia sem qualquer mudança de preço ou da qualidade da comida ou do serviço e que, assim sendo, a alteração se deveria às opiniões.  Anderson e Magruder consideraram que: “os resultados deste estudo demonstram que – apesar de os sites e fóruns de social media poderem não trazer o retorno financeiro que os investidores procuram – representam um papel com uma importância crescente no modo como os consumidores julgam a qualidade dos bens e serviços.” (Doward, 2012)

Os sites de opiniões e avaliações são considerados como a word of mouth da nova geração e, como tal, têm uma grande importância para o sucesso dos negócios. (Free Review Monitoring, 2015) De acordo com um estudo recente, 67% dos consumidores tomam em consideração as opiniões online antes de tomarem as suas decisões de consumo. (Hinckley, 2015)

Estamos agora perante uma nova forma de comunicação, o Electronic Word of Mouth (eWOM). O eWOM é uma forma viral de passar mensagens e de fazer sugestões. São os contactos pessoas que ocorrem pela internet, como são exemplo as opiniões e avaliações em plataformas online.

Para o poder desta nova via contribuem aspetos como o desejo de partilhar tudo que pauta a nossa sociedade atual, explicado psicologicamente por questões como a necessidade de pertence e a de transparecer como alguém entendido.  A grande maioria das pessoas procura aconselhamento online para as mais variadas questões do seu dia a dia, as opiniões online modelam as atitudes dos consumidores face a um produto. As pessoas confiam na opinião de outras pessoas mais do que no marketing tradicional, o aspeto relacional sai aqui potencializado. (Chen & Xie 2008)  A eWOM é mais poderosa do que a word of mouth tradicional porque atinge mais pessoas.

As opiniões nas plataformas online são uma forma de eWOM que pode acelerar o crescimento de um serviço, mas que também o pode travar. Estudos demonstram até que os consumidores preferem a informação dada por estes meios do que a que provem de meios tradicionais como o marketing e a publicidade. (Bickart & Schindler, 2001 em Plotkina & Munzel, 2016)

Os utilizadores de plataformas como a Yelp ou a Zomato tornam-se novos influenciadores de opinião. Uma má opinião pode destruir a reputação de um restaurante ao mesmo tempo que pode ajudar a melhorá-la. O chef britânico Gordon Ramsay, num dos episódios do seu programa Kitchen Nightmares disse que o Yelp é uma oportunidade de obter feedback e melhorar o negócio quando um participante culpou a plataforma pelo falhanço do seu restaurante.(Szkolar , 2013)

É daqui que parte a ideia de que estas aplicações podem, e muito, influenciar a forma como os restaurantes desenvolvem a sua comunicação.

Este tipo de plataformas funciona como um forte facilitador do processo de investigação para o desenvolvimento de qualquer tipo de estratégia de negócio. Possuir o conhecimento acerca das opiniões, em principio sinceras, daqueles que o visitam é um grande apoio para os restaurantes. A análise das opiniões dos seus visitantes permite aos restaurantes entenderem o funcionamento do seu negócio e a forma como são percecionados. (Inc. Staff, 2010) (Parikh, Behnke, Nelson, & Vorvoreanu, 2015; Inc. Staff, 2010)

Em Reviews, Reputation, and Revenue: The Case of Yelp.com, Michael Luca encontrou ligações entre opiniões positivas e revisita, contribuindo para confirmar a tese de Anderson Magruder. Para além disso encontrou também evidências de que os negócios mais pequenos são os mais afetados por estas avaliações e também aqueles que mais podem beneficiar das mesmas. (Luca 2016)

Os grandes restaurantes, de renome ou pertencentes a uma cadeia, têm geralmente equipas de comunicação responsáveis por toda a gestão das relações com os clientes e da reputação. No entanto, os estabelecimentos mais pequenos e aqueles que ainda estão a começar não têm muitas vezes essa possibilidade pelo que as aplicações se tornam uma ferramenta facilitadora no processo de aferição de opiniões. Tal conclusão permite perceber que estes restaurantes têm de estar atentos a este tipo de plataformas. Se o restaurante é bom e as pessoas gostam, a forma mais fácil de outras pessoas o conhecerem é através das avaliações online. Estas avaliações não são apenas palavras bonitas. Estas opiniões levam, provavelmente a um aumento no negócio. (Rype Group, 2016)

Mas não são só as boas avaliações que são importantes para os restaurantes. As más têm também o seu lado positivo. Estas podem funcionar como uma ferramenta de análise para que os restaurantes e os seus gestores possam perceber o que é preciso fazer. Através da análise deste tipo de opiniões é possível entender quais os aspetos de que os consumidores mais se queixam – desse a qualidade do serviço ao tempo de espera – e agir em conformidade.

A forma como os restaurantes respondem a este tipo de criticas é também crucial. Como é óbvio ninguém gosta de ver que alguém diz mal do seu estabelecimento, no entanto, é necessário pensar antes de agir. Uma resposta pronta a uma opinião negativa e que mostre que a opinião do público é tida em conta demonstra uma preocupação e uma proximidade entre o restaurante e os seus clientes. A sinceridade e a educação são aqui fatores essenciais.

A disponibilidade para a resolução de uma situação que causou desagrado a um consumidor pode contribuir para que este se torne eventualmente num cliente satisfeito. Para tal é preciso que exista um esforço por parte do restaurante não só para entender aquilo que aconteceu como também para encontrar uma forma de compensar o cliente. Após esta atitude, em que não basta dizer ao cliente que se vai resolver sem efetivação fazer tenções de tal, é até possível pedir ao cliente em causa se pode mudar a sua opinião ou fazer uma outra. (Free Review Monitoring, 2015)

Poderei neste caso apresentar um exemplo pessoal. A situação ocorreu na aplicação da Zomato aquando da publicação de uma opinião acerca do serviço de um restaurante de take-away. O restaurante em causa cobrou uma taxa de entrega superior àquela que era habito cobrar e foi daí que surgiu a queixa. O restaurante respondeu de imediato tentando entrar em contacto e entender a situação, tendo posteriormente oferecido uma entrada, numa encomenda seguinte, de forma a poder compensar o ocorrido. Tal atitude levou a que alterasse a opinião escrita inicialmente, tal como foi pedido pelo responsável, educado e preocupado, encarregue de retificar a situação.

Quando estas avaliações dizem respeito, por exemplo, a problemas com o serviço ou membros do staff – que não são simpáticos ou eficientes – estas servem para perceber quem realmente é uma mais valia para o estabelecimento, um embaixador da marca, e que apenas a prejudica. (Free Review Monitoring, 2015)

Com uma atenção redobrada a estas avaliações, os gestores dos restaurantes podem também perceber a contribuição de cada membro do staff, positiva ou negativa, e agir em conformidade recompensando aqueles que são uma mais valia e tentando analisar o caso daqueles que não o são. Deste modo, as avaliações contribuem também para a comunicação interna e para com os colaboradores.

No que diz respeito ao feedback dado pelos clientes é essencial não só ouvir o que têm para dizer mas implementar mudanças sugeridas e acompanhar a reação dos clientes. A participação dos clientes certos pode contribuir muito para o desenvolvimento do negócio. (Inc. Staff, 2010) (Kaplan & Haenlein, 2010; Inc. Staff, 2010).

As más opiniões são uma boa oportunidade para olhar para o negócio através da perspetiva de outros. A proatividade é aqui muito importante. A monitorização constante das opiniões feitas online e a rápida resposta dada tem de ser tida em consideração. Tal atitude demonstra a importância que é dada a estes stakeholders. (Hilton, 2016)

Apagar as más avaliações não deve nunca ser a resposta utilizada. Ao fazê-lo os restaurantes podem piorar muito a sua situação pois os clientes sentir-se-ão desrespeitados e poderão sentir-se tentados a proliferar a sua opinião nas várias plataformas que tenham à sua disposição. ( Gillin & Gianforte, 2012 em Dolle, 2014)

Analisemos agora em especifico o caso da Zomato. A aplicação móvel, usada por milhões de pessoas em todo o mundo está presente em mais de 10.000 cidades em 23 países.

A equipa da Zomato procura obter informações de cada espaço regularmente para garantir que estas se mantêm atualizadas. A aplicação possui ferramentas especializadas de gestão e envolvimento de clientes de forma a tentar ajudar os restaurantes a “ter mais tempo para se dedicarem à comida, o que resulta em melhores experiências gastronómicas.”

A aplicação permite que os restaurantes giram a sua presença online através da plataforma. Podem assim responder a opiniões e consultar as estatísticas da sua página de forma gratuita.

Os restaurantes podem também anunciar o seu negócio na Zomato através da compra de banners publicitários e destaques nas coleções o que aumenta a visibilidade do restaurante, mas nada tem a ver com as avaliações feitas aos mesmos. Um restaurante pode aparecer em destaque em determinada coleção tendo uma avaliação feita pelos utilizadores, os únicos que as fazes, de 3 numa escala de 0 a 5.

No site da empresa encontramos testemunhos de donos de restaurantes sobre a sua experiência com a aplicação.

“Estamos a usar a Zomato como uma ferramenta para nos ajudar a melhorar a experiência dos nossos clientes, através de ferramentas que nos permitem compreender melhor os nossos clientes, como o registo de chamadas e o feedback nas opiniões.” Owner, Bikanervala, New Delhi

“Desde que começámos a anunciar na Zomato, tivemos um aumento significativo do nosso tráfego online. Mais importante que isso, permitiu-nos receber feedback construtivo do nosso público alvo, que nos ajudou a servir com o máximo de qualidade.
Recomendamos vivamente a Zomato para qualquer restaurante ou bar.”
Owner, Boudoir & GQ, Dubai

A Zomato utiliza também um algoritmo automático para detetar opiniões suspeitas. (Zomato, 2016)

No seu estudo Michael Anderson e Jeremy Magruder afirmam que a influências das opiniões positivas nos restaurantes pode levar a que os gestores tentem de alguma forma manipular as opiniões escrevendo avaliações falsas. No entanto, as aplicações e sites possuem sistemas que permitem detetar estas tentativas.

É possível perceber, através da análise dos perfis dos utilizadores na aplicação da Zomato se estes são “perfis falsos” criados pelos restaurantes para deixar avaliações positivas. (Doward, 2012)

Existem, no entanto, algumas regras para os Restaurantes. Entre elas encontramos:

Não pedir opiniões: a aplicação pede aos restaurantes que não solicitem opiniões e que as “ganhem” por prestarem um serviço e servirem comida de qualidade não sendo aceitável a oferta de compensações em troca de opiniões.

Responder de forma positiva às críticas: a aplicação aconselha os restaurantes a pensarem antes de responderem a uma opinião negativa e a encararem-nas como feedback construtivo e uma oportunidade para corrigir algo.

Demonstrar responsabilidade: A Zomato destaca-se também da responsabilidade de não moderar quaisquer atividades questionáveis sobre os restaurantes nas opiniões.

Não ceder a pressões: os restaurantes não devem ceder a pressões de clientes para receberem opiniões positivas. A Zomato aconselha os restaurantes a não incluírem nas compensações face a opiniões negativas a oferta de refeições gratuitas pois tal poderia levar a que fossem feitas criticas negativas apenas para obter tal regalia.

De forma a garantir a neutralidade dos conteúdos da Zomato, os donos, funcionários e quaisquer outros afiliados dos restaurantes não poderão publicar opiniões na Zomato.

A Zomato não tem colaboradores ou associados pagos para escrever opiniões e, no seu código de ética, os colaboradores têm ressalvada a responsabilidade de manter a Zomato como uma plataforma neutra não sendo permitido o tratamento especial a nenhum restaurante. (Zomato, 2016)

“Now, every diner you seat has the potential to become an amateur food critic and is likely to broadcast his or her review online for the world to see”. (Sparker, 2016)

O objetivo deste trabalho prende-se com abrir portas para uma investigação mais profunda das potencialidades das aplicações de avaliação para a definição de estratégias de comunicação. Apesar dos diversos estudos realizados nomeadamente em áreas como a hospitalidade e os negócios existe ainda uma falha no que toca à áreas das Relações Públicas. Como é possível concluir deste trabalho, esta área tem uma enorme potencialidade para os restaurantes, nomeadamente para aqueles que não possuem grandes orçamentos para apostar na comunicação.

O Novo Espaço Público

Daniel Innerarity escreveu “O Novo Espaço Público” de modo a fazer uma analise ao conceito de espaço público . Dividido em 3 capitulos esta obra aborda diversas questões que devem ser pensadas, ou repensadas, ao abordar o espaço público numa sociedade plural.

O autor começa por recorrer a uma descrição de Botho Strauss que considera ilustrar metaforicamente a situação em que vivemos, uma contradição entre um convite à participação num espaço público e a fragmentação dos discursos e dos interesses, a coexistência de processos que nos vinculam juntamente com diferenças que nos separam e parecem insuperáveis. É feita uma comparação entre os indivíduos que antes chamavam a atenção dos comensais num restaurante sem nada dizer e aqueles que convocam uma greve apelando à responsabilidade para ilustrar o que é a politica atual que descreve como uma breve ilusão de unidade num mundo muito fragmentado.

O propósito da investigação é-nos apresentado por Daniel Innerarity como uma análise da ideia do espaço público e das suas transformações na sociedade contemporânea. Considera como hipótese fundamental o conceito de espaço público como uma construção frágil e variável que requere trabalho continuo de representação e argumentação que tem como inimigos a imediatez de uma politica estratégica e a imediatez desestruturada dos espaços globais abstratos. Innerarity diz-nos que irá defender, em ultima instancia, que a politica é mais um artificio do que a gestão do que existe.

Para o autor o espaço público consiste no âmbito no qual se organiza a experiencia social e que deveria ser uma instância de observação reflexiva através da qual os membros de uma sociedade produzissem uma realidade comum. Considera também que temos de perceber o que é hoje o comum para resolver o dilema entre unidade e diferença.

O conceito de espaço publico originário do debate politico de seculo XVII precisa de uma nova reflexão. O espaço público já não é somente o lugar da comunicação de cada sociedade consigo própria, mas entre as diversas sociedades.

Este conceito encontra-se agora em decadência. Deixa de ser um espaço de mediação e de formação de opinião, mas é simplesmente o espaço onde se tornam publicas.

O autor acredita que a fragmentação do espaço comum, embora ainda incerto aquilo que poderá trazer, empobrece a vida politica.

“Como atuar num mundo comum quando este perde a sua consistência, quando o «nós» que fundamenta todas as formas de compromisso tende a tornar-se impalpável?”

O primeiro capitulo deste livro inicia-se com a ideia da existente preocupação em traçar as fronteiras entre o público – espaço das relações impessoais e instrumentais do mercado e do estado –  e o privado – âmbito da vida pessoal, lugar do afeto, da intimidade, da afinidade eletiva e do abastecimento emocional. As transformações da vida política e as modificações da vida privada vieram revolucionar essa distinção, assim como a irrupção do privado, do pessoal nos cenários públicos.

O autor identifica dois fenómenos, o fenómeno de privatização do público – conversão do que há de mais intimo em espetáculo da comunicação social, proeminentes que dão a conhecer a sua vida privada e as pessoas comuns que mostram toda a sua vida em programas da televisão e politização do privado – os grandes problemas públicos são hoje em dias ligados à vida privada, a experiencia de possuir uma vida privada tornou-se numa questão politica como por exemplo o tema do aborto.

Para Daniel Innerarity um espaço público bem articulado exige a existência de questões sociais que são postas no âmbito de decisão pública e de outras que são protegidas do escrutínio de todos. Mesmo criticando a distinção tradicional de publico e privado esta continua a possuir uma importância para manter um equilíbrio e o respeito pela intimidade.

Num mundo em que os espaços sociais são vulneráveis às convocações sentimentais, a política transforma-se em vitimologia: arte de dramatizar de maneira convincente e de utilizar em beneficio próprio a força emocional gerada pelas vitimas da injustiça.

A distancia e a proximidade transformaram-se no mundo global. Com a capacidade de transmissão dos eventos por parte dos meios, os indivíduos não ficam menos afetados por acontecimentos mais longínquos do que aquilo que ficam com os mais próximos.

A politica consiste assim num modo de civilizar o emocional e impedir a instrumentalização das paixões, transforma o sentir em atuar e atribui responsabilidades onde estas faltavam.

A religião no espaço publico é um dos principais problemas na sua configuração. O fator religioso está presente nos conflitos que surgem entre as sociedades e à discussão do multiculturalismo. É preciso pensar as condições em que a religião pode ser levada em conta no pluralismo da esfera publica. Tornou-se num principio irrenunciável a ideia de que nenhuma religião deve ter uma posição oficial numa sociedade, deixando de a estruturar. A privatização da religião não significa a sua relegação para uma intimidade secreta. O problema é agora qual o lugar das crenças no mundo social. Entra-se assim numa época onde a religião está liberta de conotação politica e social, mais livre e mais pessoal.

A segunda parte do “Novo Espaço Público” apresenta-nos a questão da crise da representação política. A crise de representação em que nos encontramos faz com que, na visão de Innerarity, a esfera pública deixa de poder ser um lugar de construção deliberativa que uma sociedade democrática necessita para avançar.

A ideia da politica como lugar privilegiado para tornar visível o publico e comum é posta em questão por processos que colocam a politica cum horizonte de imediatez.

O autor apresenta-nos como evidencias inúteis das politica o apelo ao povo que serve como que para bloquear a discussão. O povo apresenta-se como uma ideia a definir e o populismo apela ao conhecimento da sua verdadeira vontade, sendo um sintoma de desarticulação social. Os movimentos populistas, que tiveram a sua força nos anos 80, representam-se ainda em algumas retoricas contra a globalização, na retorica do vitimismo, em algumas exigências de segurança e identidade, entre outros.

Innerarity indica como processo preferencial para o combate ao populismo a suspeita daqueles que formulam as suas preferências sem se referirem ao contexto social e à cooperação com os outros e que se recusam a ver para alem do imediato recorrendo a argumentos simplistas e sem precisão.

No espaço publico fragmentado ninguém quer representar o interesse geral e a autodeterminação social. Esfumou-se a ideia de um “nós” capaz de reflexão e orientação coletiva. Existe uma recusa de formular a possibilidade de conceber a integração social no sentido da qual se orientam aos conceitos de espaço publico e mundo comum. Ganha assim terreno os particularismos generalizados em grupos que defendem interesses específicos. As politicas vão tomando em conta a diversidade dos casos individuais e a discussão politica é condicionada pelas pressões exercidas. Innerarity oferece-nos também a ideia de que alguns governos acreditam que ao tratar particularmente os problemas dos vários grupos sociais evita ter de tratar a sociedade como um todo.

A despolitização consiste assim no pensamento da sociedade como um ajuntamento de grupos com interesses a satisfazer.

O valor democrático do espaço público assenta assim na ideia de que é em debate publico que os sistemas se constroem de modo a criarem integração e não se limita à satisfação repartida.

“O velho principio ontológico de que o todo é mais que a soma das partes traduz-se politicamente numa esfera pública entendida como algo que não se limita a equilibrar pura e simplesmente as preferências individuais nem resulta da justaposição das opiniões reveladas pelas sondagens.” (p.64)

Innerarity considera o diálogo como elemento mediante o qual se dá a formação da identidade e da vontade política dos cidadãos. Os debates são o instrumento pelo qual se gera uma informação que pode confirmar pontos de partida ou modificá-los.  Assim como a discussão pública que se apresenta como uma oportunidade de esclarecimento público dos interesses.

Identifica-se como urgente a legitimação adequada daquilo a que se chama democracia representativa. Para que os políticos representem melhor os cidadãos. A relação de representação, embora nos dececione por vezes, não pode ser prescindida. A representação é um espaço de criação. Os problemas políticos são originários da dificuldade de legitimar democraticamente a distancia ente representados e representantes de maneira a que sirva para uma coerência e operatividade da sociedade.

É necessário gerir o pluralismo das sociedades contemporâneas, e enfrentar os desafios que este impõe em termos de integração social e política. O desafio consiste em articular a convivência em sociedades plurais de modo a evitar um modelo comunitarista e da privatização das identidades.

O conceito de igualdade é-nos apresentado com uma crescente escassez na capacidade de integração. É preciso reformular esta ideia, segundo Innerarity, reavaliando as diferenças. Temos de entender a igualdade como politica e culturalmente diferenciada.  As diferenças, por exemplo dos grupos culturais, devem ser interpretadas como isso mesmo, diferenças. Não são só as diferenças dos indivíduos que devem ser respeitadas, mas também as diferenças dos grupos sem penalizar ninguém pela pertença. Para se respeitar a liberdade individual tem-se igualmente de respeitar a pluralidade cultural.  O reconhecimento da humanidade tem como composto a condenação das diferenças. Innerarity considera que a nossa tarefa é estar à altura do pluralismo cultural e politico atual. Deparamo-nos com uma transformação politica que este pluralismo social exige e enfrentamos um desafio que consiste na integração através do reconhecimento publico das identidades diferenciadas.

Os meios de comunicação é outro dos temas abordados por Innerarity. É através dos meios de comunicação que se produz o sentido de pertença e a integração comunicativa instantânea da sociedade mundial. São eles que nos dão a sensação de viver num mundo único. As dimensões de comum e de publico foram aumentadas por estes meios. A logica própria pela qual este espaço funciona e é essencial para compreender o espaço publico e a opinião publica configurada pelos meios de comunicação.

A orientação dos indivíduos no espaço publico só pode suceder com o saber que se obtém nos meios de comunicação. E a compreensão do mundo contemporâneo requer a compreensão prévia do funcionamento destes meios e a construção que fazem da realidade. Nestes, não é a verdade que está tanto em jogo, mas o exercício de funções sociais como a estabilidade e o entretenimento. Os meios de comunicação ordenam o caus do mundo de certa forma e tornam possível a criação de uma imagem dele, ao mesmo tempo que nos dão uma sensação de imediatez e dramatismo.

Os meios de comunicação são, segundo Innerarity, um horizonte mitológico. Os temas são sempre os mesmos e existe sempre um confronto politico no qual devemos tomar parte, ou uma catástrofe comovente.

O conceito de realidade tem também de ser tido em conta quando se fala nos meios de comunicação. O verdadeiro interesse aqui muito pouco. O espaço comunicativo é governado por outros valores. Os meios de comunicação fazem-nos viver num mundo em segunda mão onde tudo é mediado. A informação que chega até nós e o saber que adquirimos é mediado por interpretações interinas e que fazem com que a nossa interpretação da realidade seja uma reinterpretação. Aquilo que achamos saber é basicamente o que acham que devemos saber, é algo de que ouvimos falar, que nos contaram, e cujo conteúdo se baseie na interpretação que o outro fez desse mesmo acontecimento.

Para além disto, o mundo dos meios de comunicação possui também a sua dose se redundância. A esquematização quase sempre igual da moldura informativa dá-nos uma sensação de menos inquietação, A redundância é o objetivo autentico dos meios de comunicação. Proporcionam uma ideia de segurança. A informação é assim mais uma componente do entretenimento do que do conhecimento. A confirmação dos preconceitos contribui para uma estabilização emocional.

Os meios de comunicação dão forma à opinião publica. As opiniões que podemos ter são formatadas em termos de espectro e de contexto. A opinião publica deixou de ser o lugar em que se descobre a realidade, mas não passou a ser também um espaço dominado por poderes ocultos.

A cidade e o espaço público são duas ideias que se encontram ligadas, sendo a primeira associada ao lugar onde se dá a afirmação do segundo. Innerarity apresenta a origem grega da palavra “público” que significa “exposto aos olhares da comunidade” e opõe espaço público (espaço cívico do bem comum) e espaço privado (dos interesses particulares). As praticas da cidade são um resumo da maneira dos indivíduos se compreenderem. É então introduzida a ideia de que as transformações que as cidades têm sofrido ao longo do tempo influenciam o modo de pensar a urbanidade e de que forma se poderão realizar nos novos espaços que surge a relação entre cidade e civilização que advém dos primórdios.

A cidade é o local onde várias culturas convivem, onde existe maior heterogeneidade, onde as deslocações são facilitadas, é o lugar de comunicação, de divisão do trabalho. Os habitantes das cidades não têm heranças comuns, direitos e obrigações de convívio, nem as práticas tradicionais de quem vive no campo. Ao passo a que na aldeia quase toda gente se conhece e se cumprimenta, na cidade tosos são estranhos, estrangeiros. As esferas pessoal e de trabalho não se misturam, e aqueles que conhecemos num contexto especifico nada nos dizem nos outros. A aceitação pessoa não é obrigatória para a existência de uma relação funcional, não é necessário a partilha de valores. É um espaço social onde as diferenças são aceites. As fronteiras intimas não são necessariamente derrubadas para a existência de uma ralação. É assim que surge uma verdadeira vida privada. Existe uma separação das esferas sociais. A urbanização permite a existência de uma tolerância urbana em que cada um pode ser feliz da forma como entender sem se recriminado pelo seu comportamento. A cultura na cidade consiste na possibilidade de ação dos homens em conjunto sem que tenham obrigatoriamente de ser idênticos uns aos outros.

Na cidade não é fácil fazer uma distinção entre centro e periferia. O crescimento das cidades que se te dado nos últimos anos não contribui ara a integração social espacial e cultural. O possível fim da cidade como a conhecemos pode contribuir para um desaparecimento do espaço publico. A periferia ao densificar-se faz com que se misture com o centro e que os limites deste sejam difíceis de identificar. Os diferentes grupos de população afastam-se dispersa, e acabam por e juntar àqueles com que se identificam diminuindo a heterogeneidade. O espaço urbano perde assim o seu ideal unificador. Com o aumento da mobilidade a cidade vai-se dissolvendo. Os espaços públicos acabam assim por deixar de ser um espaço de criação de vida coletiva devido à crescente separação e fragmentação que ocorre nas cidades,

É colocada então a questão se o espaço publico necessita de um espaço físico para existe um espaço de experiencia humana intersubjetiva. Innerarity conclui que a cidade se transformou num espaço simbólico. As características que dantes ziziam respeito à urbanidade estão agora nas pessoas tanto do campo como da cidade que graças à crescente mobilidade podem todos ter acesso a tudo. Os valores da urbanidade já não se limitam ao espaço da cidade.  Nas cidades da modernidade já não é requerido a centralidade espacial. O novo espaço publico existe ara alem do paradigma arquitetónico.

O facto de as sociedades modernas caracteriza-me por uma homogeneização interior e exilio do estranho. A complexidade trazida pela emigração pela mobilidade, pelas relações económicas torna necessária uma mudança de vocabulário. Este mundo plural não é qualificável pelos conceitos pré-existentes. Tornou-se assim essencial a criação de novos modos de pensar a realidade e novas estratégias para articular as individualidades em consonância com a pluralidade de pertenças características destas sociedades. Verifica-se a necessidade de uma nova politica que não reprima a afirmação étnica, religiosa ou linguística, que não se reduza à uniformidade e à homogeneidade.

O segundo capitulo aborda as questões da articulação do espaço público.

A complexidade das sociedades pede um novo conceito de bem comum que surja como um critério de avaliação para a ação politica. Sendo o comum um conceito inverosímil pois uma cisa deve ser boa para alguém em concreto e não para um conceito abstrato, para alem disso é também ambíguo. Questiona-se também acerca do que consiste em o bem e como é avaliado.  No entanto, o conceito de bem comum e irrenunciável na politica para evitar que os políticos beneficiem apenas as suas “clientelas”.  Introduz—se a Ideia de Norbert Elias de que a politica é uma luta pela definição de um bem comum. Conclui-se assim que o bem comum tem de ser definido no plural pois resulta da articulação entre bens comuns e individuais e que tem de ser mantida em aberto.

A questão da organização social da responsabilidade é outra das que é imposta por Innerarity. A criação de uma teoria contemporânea da responsabilidade exige que se oponha à euforia da responsabilidade e ao derrotismo.

Não se pode esperar que os conflitos de interesses se resolvam através de responsabilidade. Mas a responsabilidade torna-se crucial na proteção dos interesses das gerações futuras que está desprotegido. A responsabilidade consiste num principio que pode colmatar as falhas dos meios tradicionais de intervenção numa época desarticulada. Innerarity considera necessário que se imponha uma politica da responsabilidade numa altura em que o âmbito da validade da responsabilidade está em causa.

Innerarity diz-nos por fim que há outro tipo de globalização que se coloca a favor das relações económicas, culturais e sociais que consiste num mundo pensado e articulado que reconhece a diversidade e a interdependência. O espaço publico internacional está a formar um novo sujeito que avalia as práticas politicas. A ignorância deve ser combatida e já não pode ser um fator a favor da politica internacional. Não se pode invocar a democracia sem que haja uma adesão da opinião pública. É urgente ter uma consciência da unidade e da fragilidade do mundo humano para o proteger, face à globalização, de um possível fim do publico.

A desresponsabilização que a globalização atual implica leva a uma perda do espaço publico. Esta destruturação social deixa o individuo desprotegido.

No entendo a globalização tem como consequências positivas o facto de tornar a definição exclusivista do interesse próprio como impossível. O mundo começa a caracterizar-se pela multilateralidade.

Para um governo de globalidade que gira este novo mundo exige-se uma revisão de procedimentos para a atribuição de responsabilidades, dos sistemas de representação e das estratégias politicas utilizadas.

Innerarity conclui que a urgência que o mundo atual enfrenta é a de cosmopolitizar a globalização, transformar âmbitos que eram considerados, por exemplo, da tradição em questões que devem ser discutidas. É preciso compreender os novos desafios que a globalização apresenta à politica e adaptar as estratégias governativas aos mesmos. O mundo e as sociedades mudaram, o conceito de espaço público e privada já não é igual àquele em que foi criado e o comportamento dos indivíduos também já não é o mesmo. Innerarity próprio assim ao longo desta obra que, olhando para os aspetos mutantes, se pense nestes conceitos e que se adaptem as conceções para fazer face àquilo a que os indivíduos consideram atualmente como sociedade.

Make the WORLD Great Again

O post desta semana é diferente. E é diferente porquê? Porque a leitura deste livro foi ela própria diferente. Quando comecei a ler Um Mundo Sem Regras de Amin Maalouf estávamos a dois dias das eleições presidenciais norte-americanas e a minha interpretação das palavras escritas era “e se isto acontecer?”. De repente passou a um “e agora?”. Tudo o que lia se assemelhava de alguma forma às circunstâncias em que nos encontramos. Esta obra foi escrita em 2009, no entanto, é impossível não se fazer um paralelismo com o momento atual.

A ideia inicial que nos é apresentada pelo autor é a de que o mundo atingiu um nível em que o desregramento é tal, alastrado a diversos domínios ao mesmo tempo, que poderemos estar a atingir o limiar de incompetência moral em que se inicia um processo de regressão. O que Maalouf já o via na altura, e nós vemos agora ainda mais, é a ascensão do fanatismo, daa violência, da exclusão e do desespero. É a destruição iminente da harmonia, da dignidade, da liberdade, da humanidade.

O primeiro capitulo, “As Vitórias Enganadoras”, começa com a recordação da queda do Muro de Berlim que trazia a esperança e o alivio da tensão entre o Ocidente e a União Soviética, a ameaça nuclear amainava e pensava-se que a democracia se espalharia por todo o planeta, destruindo barreiras, unificando os povos. Agora, exatamente 27 anos depois deste acontecimento esta esperança parece desaparecer.  O escritor libanês diz que, ao olhar para as várias partes do mundo, a Europa é a menor das suas preocupações por ser quem melhor avalia a amplitude dos desafios que a humanidade deve enfrentar, por ter os homens e as instâncias para as debater e elaborar soluções, e por ser portadora de um projeto unificador e de uma preocupação ética. Mas não estarão também todas estas questões em risco também?

O exemplo dado do mundo árabo-muçulmano, que apresenta um rancor contra a terra inteira parece já não ser caso único numa altura em que o presidente eleito pelos norte-americano baseou toda a sua campanha eleitoral na proliferação do ódio por praticamente todos os povos que não o americano, ou melhor o americano branco.

“O facto é que nos encontramos desde a queda do Muro de Berlim num mundo em que as prerrogativas são exacerbadas, nomeadamente as que decorrem da religião, onde a coexistência entre as diferentes comunidades humanas é, por isso mesmo, cada vez um pouco mais difícil e onde a democracia está constantemente à mercê das promessas identitárias.”, p.25

O Ocidente está hoje, todo ele, cheio de preconceitos étnicos que levam a cada vez mais divisões e à incapacidade de convivência entre as várias culturas.

As potências ocidentais, e principalmente os EUA, continuam a tentar preservar a sua supremacia, e não conseguindo fazê-lo pela superioridade económica ou moral fazem-no pela autoridade militar, cuja preeminência é incontestável. Os Estados Unidos possuem uma forte dominação do mundo, qualquer que seja o seu presidente. E, como diz Maalouf, não podem perder o controlo das fontes essenciais à sua economia, ou deixar que as forças que os poderiam prejudicar se movimentem com toda a liberdade. Tudo isto deixa-nos bastante preocupados com o que poderemos esperar daqui em diante. Um país com tanto poder será agora governado por alguém que parece, ele próprio desgovernado e acima de tudo ingovernável.

O autor diz a certa altura, enquanto fala da guerra no Iraque, que “nenhum dirigente tem interesse em deixar dizer que as suas reais motivações são a vingança, a avidez, o fanatismo, a intolerância, a vontade de dominação ou o desejo de impor o silêncio aos seus opositores.” (p.56) mas isto já não se verifica. Donald Trump manifestou todas estas intenções ao longo dos últimos meses e mesmo assim chegou ao poder. E não foi a um poder qualquer, foi a um poder sem igual.

O ocidente, e concentrando-nos muito nos Estados Unidos, deixou de por em prática muitos dos seus valores. Um deles, e o que mais está aqui em causa, é a universalidade, a humanidade como uma. Estamos a afastar-nos. A criar muros. A falar em nós e nos “outros”. A considerar algumas culturas e etnias como mais importantes e legitimas do que outras.

Amin Maalouf apresenta-nos a questão do poder e da sua legitimidade ao nível planetário, da existência de um governo global que aplique o seu poder aos diferentes povos possuindo uma legitimidade que não é económica ou militar. “E para que as identidades particulares possam fundir-se numa identidade mais vasta, para que as civilizações particulares possam inserir-se numa civilização planetária, é imperativo que o processo se desenrole num contexto de equidade, ou pelo menos se respeito mútuo e de dignidade partilhada.” Ora, considerando a América como uma superpotência mundial é preocupante que tudo o que se observa agora no país vá absolutamente contra estas ideias e não parece existir ninguém capaz de o controlar.

Uma das frases mais inquietantes deste livro é, no inicio do capitulo “Legitimidades Perdidas”, quando o autor diz “na época pressentia isso, hoje sei-o com toda a certeza, este voto na Flórida ia mudar o curso da História…”. O momento a que o autor de refere remete às eleições que levaram George W. Bush à presidência e a Flórida é agora um dos key states que deu, surpreendentemente, a vitória a Donald Trump, e que é agora alvo do ódio de muitos americanos. Será a história a repetir-se? Resta-nos esperar que não.

Mais à frente, voltamos a deparar-nos com outra questão importante: o papel global dos Estados Unidos. “A partir do momento em que os sufrágios dos cidadãos americanos, que representam cinco por cento da população mundial, são mais determinantes para o futuro de toda a humanidade do que os restantes 95 por cento, é porque há uma gestão política do planeta uma disfunção.” E agora? Agora que os americanos fizeram uma escolha que assusta, uma escolha aparentemente má e perigosa, o que será do resto do Mundo? Que consequências trará isto para nós que não pudemos ter nada a dizer nesta escolha?

No terceiro e ultimo capitulo, “As Certezas Imaginárias”, Maalouf diz-nos que, nesta época sem comparação, é preciso inventar referências, solidariedades, legitimidades, identidades e valores. Não podemos reencontrá-las porque este momento é singular. É preciso entrar numa fase diferente da aventura humana. Mas não é isso que está a acontecer. Pelo contrário, assistimos a um retrocesso. O preconceito acentua-se e cada um é cada vez menos livre de viver segundo a sua cultura e a sua religião. São julgados pelos seus modos de vida e tudo isto é feito através de uma generalização. Os imigrantes que vivem na América, muitos deles com toda a sua vida enraizada no país, filhos que já lá nasceram, cidadão apenas com um berço diferente são ameaçados. Vêm a sua vida a ser posta em causa e tudo aquilo que conquistaram e contruíram prestes a ruir. A diversidade, que se pode considerar um dos grandes valores da cultura ocidentes, já não parece sê-lo. Deixa-se de se olhar para o contributo que as diferentes culturas a viver em harmonia podem dar a um país, a capacidade de o tornarem mais forte e até de servirem como intermediárias para as relações com os países de origem. Todos são considerados uma ameaça. E neste assunto já nem nos podemos restringir aos EUA, a França, com o crescimento da força dos partidos de extrema direita, parece ir pelo mesmo caminho.

Afastá-los não será mais perigoso do que reconquistar a sua confiança? Só o futuro nos dirá.

O último dos problemas que encontramos neste texto é a ameaça das alterações climáticas. Para o autor este é o grande perigo. É face a este que precisamos de agir urgentemente, especialmente as grandes potências industrializadas cuja economia contribui tanto para este agravamento. Mas o presidente eleito dos EUA diz não acreditar que esta condição exista realmente, defendendo que se trata de uma invenção da china para diminuir a industria americana e conseguir suplantá-la. Estaremos então a caminhar rapidamente para o abismo? Conseguirá ainda a minha geração e das gerações mais novas ter um futuro neste planeta? Ou as ações inconscientes o “deixa andar” impossibilitarão que tal aconteça?

É então no “Epílogo” que o autor, e nós próprios, questiona se toda a turbulência do inicio do século XXI servirá para despertar o mundo globalizado, se poderá ser o fim de “uma Pré-História demasiado longa”, ou se terá repercussões de uma gravidade incalculável.

Como sairemos daqui? Haverá ainda saída?

“O que teve o seu tempo e que deve hoje ser encerrado é a história tribal da humanidade, a história das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre “civilizações”. O que termina diante dos nossos olhos é a pré-história dos homens. Sim, uma pré-história demasiado longa, feita de todas as nossas crispações identitárias, de todos os nossos etnocentrismos que não deixam ver, dos nossos considerados “sagrados”, quer sejam patrióticos, comunitários, culturais, ideológicos ou outros.(…) os únicos verdadeiros combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos serão científicos e éticos(…)”, p.271

Estará então este período a ser encerrado? Ou estaremos a regressar a esta “história tribal da humanidade”? As lutas, os ódios entre as comunidades éticas ou religiosas e as “civilizações” propagam-se a uma velocidade estonteante. Os Estados Unidos elegeram como seu líder uma pessoa que incentiva estas lutas e estes ódios. O etnocentrismo acentua-se e o ideal de humanidade unida esfuma-se. Conseguirá a humanidade sobreviver a um domínio assente na divisão, no ódio e na propagação do medo? Ninguém sabe, mas, a continuar assim, o futuro não parece risonho. E o fim da “história tribal” parece agora mais distante ainda do que pareceria a Maalouf quando o escreveu em Um Mundo Sem Regras, que para além do titulo desta obra parece dar nome ao mundo em que vivemos hoje.

(Ainda visamos a) Nobreza de Espírito?

“E nós? Ainda visamos a nobreza de espirito? Não a procuremos no mundo dos media, no mundo da politica, no mundo do ruido. O espirito nunca esteve aí. Não vão à academia. Expulsaram o espirito. E nas igrejas? Há uma razão que soa a oco, No mundo da fama. Aí perdíamo-nos.” (p.121)

Vivemos atualmente numa sociedade onde o conceito de nobreza de espirito parece escassear. Para qualquer lado que olhemos vemos exemplos da sua falta. O ser humano deixou-se corromper pelo utilitarismo e pela ansia do poder. Os ideias de civilização têm vindo a perder-se.

Em Nobreza de Espirito Rob Riemen compila momentos de vários autores que nos permitem pensar não só no que é a nobreza de espirito, mas também na forma como a história se repete ao longo dos tempos e nos perigos da perda da capacidade de pensar e da dissolução do ser humano no mundo capitalista.

Nesta obra encontramos a ideia de Espinosa de que “a mente é o maior dom da humanidade”. Para o filósofo, todo o individuo poderia perceber o que é realmente bom, e viver a sua vida de acordo com isso, se pensasse por si. Que seria o amor à sabedoria e a dedicação ao pensamento que permitiriam viver uma vida boa.

Atualmente, vemos que cada vez menos as pessoas pensam por si, deixando-se manipular por aquilo que lhes é dito. Deixaram de se questionar e de procurar a verdade limitando-se a tomar como verdade o que ouvem, aquilo que convém.

Vivemos um tempo em que se parece instalar, de novo, a opressão através de fanatismos, quer religiosos (que já existem) quer políticos. Estes fanatismos, segundo Espinosa não permitem o pensamento independente, cultivando o ódio pelos que pensam de forma diferente. Os recentes ataques terroristas e as ameaças sob as quais a europa tem vivido demonstram isso mesmo.

Outro exemplo é a candidatura de Trump à presidência dos Estados Unidos da América. Uma ideologia que assenta na propagação do medo e do ódio.

“Qual o futuro da democracia, da liberdade politica, se o povo já não sabe qual é a essência da sua liberdade? Quando já não pensam, já não se deixam conduzir pela razão, mas estão escravizados por superstições, medos e desejos?”

A dignidade humana está a ser ameaçada através de discursos que incitam à critica, à desvalorização e à humilhação. Espinosa acreditava que a dignidade seria a essência da liberdade e que aqueles que se deixavam possuir pelo medo não saberiam o que significa a liberdade. Liberdade essa que, como ideal de vida conduzido pela verdade, era para ela a nobreza de espirito.

Para Thomas Mann, em quem o Riemen tantas vezes se inspira, considerava a ética pessoal era ameaçada pela politização do espirito, que focava a ideia da sociedade perfeita ou do individuo perfeito. Devíamos todos honrar a nossa existência procurando e duvidando, pois não seria o pensamento politico a deter a capacidade de resolver as questões da vida, coisa que só poderia ser feita pela educação liberal, a ética, a religião e a arte. A arte, por sua vez, seria destruída num mundo politizada ao ser reduzida a uma utilidade. A cultura, conceito que opõe ao de humanismo, a ser eliminada assim como a formação moral e espiritual do ser humano.

Ao considerar a cultura como uma nova forma de revelação da verdade, o seu desaparecimento levaria à aniquilação da verdade, e por sua vez à privação do individuo da sua dignidade. Mann atribuía também a existência de verdade à linguagem que nos permite pensar, conhecer o mundo e que molda as nossas experiências e emoções. O escritor alemão continuou sempre a escrever, independentemente daquilo que se passava à sua volta – desde a guerra ao suicídio do filho – para recuperar a linguagem que teria sido roubada pelos mentirosos.

Mann desiludiu-se com as democracias ocidentais que toleravam a ascensão de certos regimes apenas por interesses económicos. Algo que ainda acontece nos dias de hoje. A democracia, para Thomas Mann, teria de ter nobreza, não de sangue mas de espirito. Teria de respeitar a vida intelectual para que a demagogia não tivesse rede livre.

Não considerava que a arte poderia salvar a humanidade, poderia sim libertar a alma humana do medo e do ódio e levar assim o individuo mais longe.

Mais uma vez a arte apresenta-se como uma forma de comunicação que nos permite conhecer a realidade, o mundo e que permite a busca da verdade.

O ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 é um exemplo que está muito presente em Nobreza de Espirito. Este ataque, visto por muitos como sendo contra a civilização ocidental, no entanto alguns intelectuais consideram-no como um ataque à América.

Sendo a América um país sem historia e sem cultura, o ataque devia ser visto como uma critica.

O conceito de civilização foi definido por Condorcet como “uma sociedade que não precisa de violência nenhuma para introduzir mudanças politicas.” e para John Millar como “a nobreza de costumes que é a consequência natural da abundancia e da segurança.”

A prosperidade e a segurança são as condições para a civilização existir mas não os valores que delineiam a sua essência. Uma sociedade que dá primazia à propriedade material não tem civilização. Os ataques do 11 de Setembro dirigiram-se a edifícios que simbolizavam prosperidade e segurança. Isto poderá então levar-nos a pensar em ataques como o que foi feito ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, um ataque à liberdade de expressão e a uma sociedade que permite liberdades como essa e que é tão odiada por regimes onde nenhuma liberdade é tolerada.

Sócrates atribuiu aos intelectuais a tarefa de preservar o ideal intemporal da civilização. Esses mesmos intelectuais possuem o dever de “salvaguardar e transmitir o seu conhecimento do que é melhor e mais valioso.”

Para Camus, a existência dos intelectuais era justificada pela sua responsabilidade para com o mundo das ideias e a nobreza de espirito. Para o filósofo francês, estes

Com a politização e a ideia dos seres humanos perfeitos na busca de uma sociedade perfeita a nobreza de espirito foi esquecida. A falta de integridade intelectual é enorme assim como a traição dos intelectuais à nobreza de espirito. Esta traição vem da sedução do poder, de ser ouvido e admirado, e da má fé, a influencia do mundo cientifico vem apoderar-se do mundo intelectual e a linguagem da objetividade leva à perda do sentido do espirito.

Ginzburg aprendeu com os gregos que a essência da cultura era o desenvolvimento da alma humana. Tomava como seu dever intelectual transmitir aquilo que seria o melhor da herança cultural europeia nas suas publicações.

Já Herzen acreditava na liberdade como condição essencial para a existência de cultura. A proibição da cultura tornava a liberdade em algo sem sentido. O filosofo russo defendia que a seria a liberdade que permitiria aos indivíduos cultivarem as suas almas para se tornarem modelos da dignidade humana.

Nestes e noutros exemplos que nos são dados por Rob Riemen ao longo de toda a obra que a nobreza de espirito foi sendo ignorada ao longo dos tempos para dar lugar aos interesses particulares de cada um. A ganancia e o desejo de poder dos indivíduos levou a que, em diversos períodos da história, estes agissem de formas que vão contra a ideia de civilização e de moral. Na sociedade atual a nobreza de espirito é algo que não consta na vida daqueles que regulam a nossa sociedade. Vivemos numa sociedade de massas em que ninguém pensa por si, em que a busca pela verdade e pela essência vai desaparecendo no meio de indivíduos que desempenham um papel passivo na sua vida. As ideologias do terror vão tomando conta, o medo é proliferado diariamente e o respeito pela vida e pela dignidade humana praticamente não existe. Os problemas da sociedade são ignorados quando valores – monetários – mais altos se levantam. Não nos é possível acreditar em tudo o que nos é dito pois na sua maioria a informação que chega até nós está controlada por aquilo que querem que acreditemos, a versão da verdade em que devemos acreditar para que nos comportemos da forma que mais interessa.

A nobreza de espirito escasseia e o ser humano afasta-se da sua cultura e dos seus valores tornando-se apenas mais um membro da sociedade e enquanto não regressar à educação do seu espirito e à sua valorização talvez não consigamos avistar dias melhores para o mundo em que vivemos.

Rethinking the Enterprise

O paradigma empresarial atual está marcado pelo foco extremo nos resultados e na geração de lucro. Isto acontece de tal forma que o futuro do planeta e das gerações é posto em causa todos os dias. As organizações, em parte, deixaram de se preocupar com o bem da sociedade e não olham a meios para atingir o seu fim principal, o lucro.

Em Rethinking the Enterprise Philippe de Woot apresenta-nos o estado da economia contemporânea e os seus perigos para a sociedade enquanto nos tenta alertar para a urgente necessidade de uma revolução.

As empresas são o grande potenciador da criatividade económica e técnica. Como tal, acredita-se que servem, quase de forma automática, o bem comum através da “mão invisível”. Contribuem para a criação de riqueza e de emprego, sim, mas contribuirão atualmente para o progresso? Será que o facto de mediarem a ciência e a tecnologia faz com que participem realmente no processo evolutivo?

Nos dias que correm a economia tem se distanciado cada vez mais da ética e da politica. A par de um crescimento económico e de uma criação de riqueza sem igual aumentam também as desigualdades sociais, a pobreza, as injustiças e a desintegração social.  O planeta está a ser ameaçado em larga escala e o futuro encontra-se bastante comprometido. Face a tudo isto De Woot começa por colocar em causa a aceitação politica e moral do modelo económico em vigor.

O seculo 21 apresenta inúmeros desafios – o desenvolvimento sustentável, a abertura dos mercados e das sociedades, o aumento do emprego… – que precisam de resposta urgente. É preciso pensar em como podemos então reorganizar a criatividade das empresas de forma a responder a estes problemas.

Enquanto aumenta a riqueza, o mercado cria maior distanciamento entre ricos e pobres. A globalização também cria e acentua desigualdades, nomeadamente entre homens e mulher.

As empresas são o principal agente do sistema económico e dado o enorme poder que possuem têm também inúmeras responsabilidades entre elas tentar dar resposta às necessidades da sociedade. Em Rethinking the Enterprise encontramos o espirito de empresa, a criatividade e a inovação como respostas necessárias aos desafios que o mundo enfrenta.

As empresas têm de funcionar como stakeholders em conjunto com as autoridades e as forças sociais para que as mudanças realmente aconteçam.

As empresas estão em constante processo de mudança, atualizam-se e criam ovos produtos e serviços que ora substituem ora melhoram aqueles que já oferecem. A inovação e criatividade são características essenciais para a transformação do modelo económico que apesar de ter promovido o desenvolvimento começa agora a não ser capaz de responder às necessidades sociais.

As corporações têm um grande poder sobre o desenvolvimento de países e regiões o que levanta questões acerca das suas responsabilidades sociais e do papel que têm no desenvolvimento.

A área cientifico-tecnológica tem uma enorme representação a nível monetário para a economia mas também a nível social podendo tanto ajudar quem mais precisa como prejudicar gravemente o planeta. A economia funciona de um modo em que o que interessa é o aproveitamento dos recursos e aquilo que estes trarão em termos de benefícios. Não se baseia em valores. Se existe a possibilidade de criar muito dinheiro sendo irresponsável então essa irresponsabilidade é tida como justificada. O foco está na rentabilidade e não nos comportamentos éticos. Se der lucro a ética pode ficar de fora.

Existem até muitas empresas que consideram as CSR como algo que lhes possa trazer benefícios, longe da ética e da ideia de solidariedade. Acreditar que a contribuição das empresas para o bem comum assenta no facto de criarem riqueza e emprego não é suficiente. O seu poder é imensamente mais extenso.

O futuro do planeta e da sociedade está em risco e estamos a acabar com os recursos que temos demasiado rápido. O desgaste dos recursos e a poluição não são culpa exclusiva das empresas mas as necessidades económicas contribuem muito para tal. É então importante que as empresas passem a agir de acordo com a ideia de que têm um enorme poder para deixarem de ser parte do problema e se tornarem parte da solução.

As empresas podem ter aqui um papel muito importante se adotarem uma cultura responsável. Não conseguirão fazê-lo sozinhas. Serão, no entanto, um importante agente participativo em conjunto com os restantes órgãos sociais e políticos.

É preciso restaurar a dimensão ética e politica da economia e repensar o propósito das empresas. É indispensável colocar as operações das empresas num contexto de ética e bem comum sem os quais esta não poderá ter legitimidade politica ou moral.

Têm a responsabilidade de aplicar a sua criatividade de modo a que sirva para o bem comum e que tenha significado. É essencial orientar a criatividade para que leve ao progresso e não se centre exclusivamente no lucro.

O lucro não pode ser o propósito da empresa. É preciso mudar não a estrutura mas sim a cultura das organizações. A cultura são os genes da organização, incluindo os valores que guiam a sua ação. Assim sendo, é crucial que a ética esteja aqui bem presente.

Algumas empresas já o fazem, é o seu soft power.

As dimensões politica e ética são essenciais para guiar o comportamento da organização. As empresas têm de ter consciência das consequências dos seus atos e da influência que estes poderão ter nos outros e na sociedade.

As empresas têm de pensar no tipo de mundo que estamos a construir e em qual a contr

Proposta de desenvolvimento sustentável  – atingir as necessidades do presente sem comprometer o futuro

A nível politico as empresas tem de entrar no debate acerca de uma proposta de desenvolvimento sustentável – de modo a atingir as necessidades do presente sem comprometer o futuro – em conjunto com os restantes stakeholders da sociedade.

“Ethics ‘by interest’ is not ethics” – p.66

As empresas não podem simplesmente dizer que atuam no âmbito da Corporate Social Responsability ou limitar esta atuação a apenas alguns setores. Se esta estiver presente apenas em algumas práticas e não na cultura e nas atitudes da organização então não tem efeito transformador.

Neste caso, e no que às relações públicas diz respeito não basta “fazer o bonito”.

Do ponto de vista da liderança são precisos lideres capazes de guiar a mudança cultural, de gerar motivação. Lideres que oiçam e se preocupem, que sejam responsáveis pelas atitudes assegurando a consistência com os valores. Respeitar as pessoas e o bem comum tornando-se um líder ético. Construtor da consciência

As empresas, e claro os seus lideres, devem desenvolver a ética no seu core.

Outra questão essencial é a criação da corporate citizenship. Uma organização que desenvolva a sua cultura politica, que participe nas discussões da comunidade para o bem-comum, nos debates e assuma a sua responsabilidade politica.

Todas estas questões encontram-se, em parte, sob a alçada das relações públicas. Através do desenvolvimento de uma cultura com base na ética, dando a devida importância à responsabilidade sem que esta se limite a uma fachada para “parecer bem”. Os profissionais de relações públicas terão aqui um papel de extrema importância na medida em que é necessário trabalhar a participação das empresas na sociedade em coadunação com os valores estabelecidos. As organizações como cidadãs envolve um trabalho não só a nível de comunicação e de apoio social mas também de transformação da cultura e do seu posicionamento. Para além de tudo isto, faz também de certo modo parte das responsabilidades das relações públicas a garantia da legitimidade das empresas pois só assim estas conseguirão ter um verdadeiro impacto na sociedade.

Ser europeu…

“É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que «a vida não refletida» não é efetivamente digna de ser vivida” – George Steiner, “A Ideia de Europa”

A Europa atravessa, atualmente, um período algo conturbado. A crise dos refugiados provenientes da Síria que atravessam diariamente o Mar Egeu em direção à Grécia e os atentados terroristas em França e na Bélgica têm vindo a agitar o velho continente.

Estes acontecimentos têm levantado diversas questões que colocam em causa a “ideia de Europa”. Ao lermos a obra de George Steiner intitulada, precisamente, “A Ideia de Europa” encontramos as mais variadas ideias que nos remetem precisamente para o período que estamos agora a viver.

O continente europeu é a casa do conhecimento, dos grandes pensadores, das descobertas. É onde encontramos “recursos densamente distribuídos de inteligência, de sensibilidade, de memória, de imaginação e de criatividade” (Durão Barroso em Steiner, 2006, p. 7)

Vivemos da história, da cultura, daquilo de que somos feitos. Como tal, temos também na nossa génese a liberdade e a diferença. A ideia de que a cultura europeia tem as suas raízes em Atenas e Jerusalém mostra perfeitamente que este continente é pautado pela diversidade. O Homem europeu é de si influenciado por povos diferentes, com culturas e mentalidades distintas.

“Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (Steiner, 2006, p. 36)

O lema da União Europeia é, justamente, “Unidade na Diversidade”, França tem como máxima “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Segundo Durão Barroso, no prefácio deste livro, a liberdade e a diferença são condição e garantia da diversidade na Europa, tal constitui um trunfo na idade da globalização em que nos encontramos.

Mas, apesar de a “ideia de europa” assentar originalmente nesta harmonia, o continente tem vivenciado alguns dos mais negros e conturbados períodos da história. O holocausto, por exemplo, é só por si um dos maiores (se não o maior) ataque à diferença e à liberdade.

Estes “ódios étnicos” não são apenas algo do passado, um pedaço de história. Os acontecimentos recentes são prova disso. A crise dos refugiados, por exemplo, demonstra o quanto o homem europeu pode ser preconceituoso. Se por um lado são muitos aqueles que se mostram solidários e recetivos ao acolhimento destes migrantes, vários também se insurgem contra utilizando argumentos raciais e religiosos considerando que estes apresentam um perigo para todos.

Outro exemplo são os ataques terroristas que tanto têm atormentado a europa ocidental nos últimos tempos. O extremismo islâmico, que se baseia numa interpretação muito especifica da sua religião, atenta à liberdade dos povos com cujos ideias não concorda. Neste caso não existe qualquer tipo de aceitação pela diferença e pela diversidade, os ideais base da Europa.

Estes episódios, chamemos-lhes assim, vêm criar uma intolerância, uma repudia e um cada vez maior afastamento da ideia de europa diversificada e multicultural.

Uma possível regeneração da Europa, dos seus antigos ideais, uma fuga à americanização recorrente, pode ter em si mesma “o privilégio imperativo de produzir um humanismo secular” (Steiner, 2006, p. 52) para que, eventualmente, possamos dizer que vivemos unidos na diversidade.

 

Somos todos Polegarzinhos

“Without us even realizing it, a new kind of human being was born in the brief period of time that separates us from the 1970s.” (Serres, 2015, p. 7)

A sociedade está em constante mudança. De dia para dia o mundo avança, algo novo surge, alguma coisa se transforma. O próprio ser humano tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos tornando-se praticamente inconfundível face aos seus antepassados.

Os indivíduos de hoje em dia, como considera Michel Serres na obra Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials, não habitam no mesmo mundo global que os seus pais ou avós, convivem diariamente com pessoas de diversos pontos do mundo, de culturas diferentes, menos influentes e com experiencias de vida completamente diferentes das suas. A própria sociedade em que vivem é caracterizada pelo multiculturalismo. São seres afortunados. Nunca viveram em tempos de guerra, fome extrema ou doenças virais. Não conhecem a vida rustica, os animais do campo, a agricultura. Sabemos até que em muitos casos, os jovens atuais nunca, durante toda a sua vida, entram em contacto com estas realidades, limitando-se a conhecer os alimentos como se encontram nos supermercados. No entanto, poluem menos do que os seus antepassados pois possuem uma maior consciência ambiental.

Estão formatados pelos media e a sua capacidade de atenção está deformada pela redução da duração das imagens a 7 segundos. São confrontados diretamente com a morte e as imagens destes senários passa por eles a toda a hora. A publicidade tolda-lhes também o pensamento e controla os seus dias e as suas vivências. Os media tomaram a função de ensinar, tornando-se mais influentes do que os próprios professores.

Estes “novos seres”, representados por Thumbelina, habitam num mundo virtual, colados aos tablets e smartphones. As ciências cognitivas mostram que usar a internet, ler e escrever mensagens, consultar a Wikipedia e o Facebook não estimula os mesmos neurónios ou as mesmas zonas do cérebro do que um livro, um quadro de giz, ou um caderno. O que nos indica o quão diferentes os millennials são, até a nível cognitivo.

Conseguem manipular vários tipos de informação ao mesmo tempo, no entanto não a conseguem entender nem sintetizar da mesma forma que os seus antecessores faziam.

Têm acesso a todas as pessoas, a todos lugares, a todo o conhecimento de forma imediata e praticamente automática. São seres globais que não têm a mesma esperança de vida, não comunicam da mesma forma, nem percecionam o mundo do mesmo modo.

Escrevem de forma diferente e vão ficar cada vez mais distantes da língua que se fala agora e que muda a uma velocidade estonteante.

São seres muito sociais, não se mantêm para si próprios e interagem com toda a gente, próximo ou distante, conhecido ou não. Quase toda a população usa o Facebook, o que veio trazer esta possibilidade de proximidade.

O conhecimento foi-se objetificando. Está disponível na web para todos e qualquer um pode aceder a todo em qualquer momento.

A comunicação já não está circunscrita a um espaço onde um fala e outro ouve. É possível falar de nossa casa para qualquer sitio sem termos de sair.

Vivem numa nova economia onde não é preciso lembrarem-se de pormenores como uma localização pois basta uma pesquisa na web para que o problema seja resolvido.

Os alunos millennials não querem que se lhes repita o que já foi escrito há muito tempo. Não se interessam sequer por acontecimentos que não vivenciaram e que estão longe da sua realidade.

Não querem só ouvir, querem discutir. É quase impossível ensinar de forma tradicional. Estes não se limitam a aceitar, questionam.

“In the sanctuary, there are no priests; in church, everyone is a preacher;” (Serres, 2015, p. 35)

Todos sabem, todos querem e podem ser ouvidos.

E ouvi-los é muito importante. Não só o que dizem mas também, e como diz Serres, ao barulho de fundo que produzem.

Estes novos públicos representam um desafio para os profissionais de RP. A forma como se comunica com os mesmos não é igual à utilizada para chegar às gerações anteriores.

Estão de tal forma ligados às novas tecnologias e aos social media que os canais tradicionais já não são suficientes. Não ouvem o que lhes é dito, muitas vezes, se o assunto não lhes despertar particular interesse.

Utilizam o computador para tudo. Toda a informação de que necessitam estão ali ao seu dispor a qualquer instante.

São muito mais exigentes. Como têm tanta coisa ao seu dispor dificilmente ficam satisfeitos.

Não dão especial atenção às “velhas” fontes ditas oficiais pois encontram aquilo que procuram em qualquer site na internet e é essa e informação que consideram válida. E este é um dos grandes obstáculos que se coloca aos profissionais de RP na comunicação com estes públicos. Aquilo que ouvem/leem acerca de uma qualquer organização foge ao controlo da mesma.

As “vozes” ouvidas por estes públicos são as que provêm dos media, dos anúncios e, em grande parte, dos blogs e dos social media.

Tudo é partilhado. Qualquer ideia ou opinião que os millennials tenham é rapidamente difundida nos seus social media o que, apesar de ser um potencial problema por poderem dizer o que querem acerca de qualquer coisa, facilita também a tarefa de aferir aquilo que pensam.

Os millennials são um público diferente e o porquê é facilmente identificável em Thumbelina. São seres totalmente diferentes e em constante mutação. Saber comunicar com eles é uma capacidade que os profissionais de Relações Públicas têm de readaptar à velocidade do seu desenvolvimento.

É preciso inovar, inventar, apresentar novidades. Só assim será possível chamar a atenção de uma geração que já tem tudo na ponta dos dedos.

Serres, M. (2015). Thumbelina – The Culture and Technology of Millennials. Londres: Rowman & Littlefield.

Comunicar é…

co·mu·ni·car – Conjugar
(latim communico, -are, pôr ou ter em comum, repartir, dividir, reunir, misturar, falar, conversar)

verbo transitivo

  1. Pôr em comunicação.
  2. Participar, fazer saber.
  3. Pegar, transmitir.

verbo intransitivo

  1. Estar em comunicação.
  2. Corresponder-se.

verbo pronominal

  1. Propagar-se.
  2. Transmitir-se.

“comunicar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/comunicar [consultado em 06-10-2016].

Comunicar é muito mais do que um simples conceito. É algo intrínseco ao ser humano e sem o qual este não pode viver. Tudo aquilo a que ao Homem diz respeito está dependente da capacidade de comunicar e é impossível não o fazer.

Consideram-se dois tipos de comunicação: a comunicação verbal (escrita ou oral) e a comunicação não-verbal (composta por gestos, postura, expressões…). Mas a comunicação não se limita à transmissão de informação, não é um produto mas sim um processo. É através desta que se constroem e densificam relações, que se resolvem conflitos, e até se discute a própria comunicação – metacomunicação: capacidade de comunicar sobre a dinâmica da comunicação entre interlocutores (Conceição, 2016).

O processo comunicativo é constituído por uma série de questões e conceitos que o caracterizam. Muitos desses temas são abordados na obra Metadiálogos de Gregory Bateson.

Metadiálogos é uma compilação de algumas conversas entre Bateson e a sua filha Mary Catherine onde estes discutem alguns assuntos problemáticos ao longo de sete capítulos, cada um deles abordando metaforicamente uma temática diferente da comunicação.

Metadiálogo: conversa acerca dum assunto problemático. (Bateson, 1972)

Logo no primeiro metadiálogo, “Porque é que as coisas de desarrumam?”, deparamo-nos com uma das características da comunicação, a atribuição de múltiplos significados às coisas. Um termo pode significar coisas diferentes para diferentes pessoas. Neste caso é dado o exemplo da arrumação. Aquilo que é “arrumado” para uma pessoa não é necessariamente para outra. Existem inúmeras opções para aquilo que se pode considerar, neste caso, arrumado. Este conceito difere de pessoa para pessoa. No entanto, para cada individuo existem mais maneiras a que chamam “desarrumadas” do que “arrumadas”.

Aqui podemos encontrar um conceito recorrente na comunicação: a entropia (medida da desordem ou da imprevisibilidade da informação).

A comunicação está recheada de imprevisibilidade. Existe um grande numero de possibilidades para aquilo que pode acontecer. Como no exemplo dado também sobre o que acontece nos filmes em que as letras estão todas misturadas em cima de uma mesa e que ao abaná-la se organizam com mais ordem e significado numa palavra com sentido em vez de ficarem mais misturadas. Uma situação com elevado grau de entropia pois as tais letras podem criar infinitas “palavras”.

A comunicação não é só verbal, comunicamos com todo o nosso corpo e até mesmo quando não o queremos fazer. No metadiálogo “Porque é que os Franceses mexem muito os braços?”, a filha de Bateson considera que os Franceses, ao gesticularem tanto, parecem todos muito excitados e questiona se, no entanto, estarão todos realmente tão excitados quanto parece. Temos aqui um bom exemplo daquilo que é a comunicação não verbal. Todos os indivíduos mexem-se quando falam, uns mais outros menos, quer se apercebam do que estão a fazer quer não. Aquilo que cada um sente ou pretende transmitir ao fazê-lo difere de um para outro. Quando um francês mexe os braços diz ao seu interlocutor qualquer coisa do que sente a seu respeito – que não está zangado ou que está bem-disposto. Mas não é só fisicamente que se dá a comunicação não-verbal. O tom de voz, a expressão facial, o olhar, a postura, são todas formas de comunicar. Até o silêncio comunica algo, como podemos ver no exemplo em que quando o pai vai à pesca e a filha lhe pergunta se apanhou alguma coisa o silencio deste diz que não gosta que se metam com ele a respeito dos peixes que não pescou.

Os dois tipos de linguagem existem em simultâneo, e podem até por vezes transmitir informação contraditórias quando, por exemplo, dizemos que estamos bem mas na verdade a nossa expressão mostra que estamos tristes.

“O ponto é que não existem nenhumas ‘simples palavras’. Só há palavras com gestos, ou tom de voz, ou coisa do género. Mas, evidentemente, gestos sem palavras são frequentes.” (Bateson, 1972, p. 25)

Em “Acerca dos jogos e de se ser sério” encontramos a ideia de que “parece que uma conversa é um ‘jogo’ se uma pessoa toma parte nela com um dado conjunto de emoções ou de ideias, mas não é um jogo se essas ideias ou emoções forem diferentes.” (Bateson, 1972, p.31). Um jogo como uma construção de blocos feita por uma criança, que por ser um jogo não deixa de ser sério, não deixa de se chegar a algum lado. Através das conversas, como as entre Bateson e Catherine, é possível clarificarem-se algumas ideias e as até confusões ajudam nisso. Para ter pensamentos novos é preciso separar todas as ideias pré-existentes que se tem e misturar todos os seus pedaços outra vez.

As conversas, tal como os jogos, têm regras. Nem sempre conhecidas, mas sempre presentes, mesmo que algumas das vezes sejam controladas, ou contornadas, por um dos membros. “Há regras a respeito de como as ideias de mantêm de pé e de como se suportam umas às outras.” (Bateson, 1972, p.33) Regras a que, segundo Bateson, temos de nos agarrar para que quando surge a confusão não nos tornemos loucos.

É através da comunicação que se desenvolve o conhecimento. No 4º metadiálogo, “Pai, quanto é que tu sabes?” considera-se o conhecimento como um tricô em que cada peça só faz sentido ou é útil por causa de todas as outras peças que se entrelaçam umas nas outras. O conhecimento é um dos conceitos difíceis de quantificar. Não é fácil perceber o que é realmente o conhecimento porque é algo que difere de pessoa para pessoa. Há tipos diferentes de conhecimento e há conhecimentos acerca do conhecimento. Tal como a comunicação e a metacomunicação, respetivamente.

A comunicação tem uma estrutura que nem sempre é visível. As conversas são estruturadas, têm sequências (como por exemplo, o turn-taking – a ordem em que os interlocutores participam). No metadiálogo “Porque é que as coisas têm contornos?” fala-se em dar contornos a algo quando desenhamos, que como numa conversa, é a estrutura. Nas conversas, os contornos não são visíveis durante a mesma e são apenas perecíveis de ser analisados após a mesma. Se fosse possível ver os contornos durante uma conversa a mesma tornar-se-ia previsível. Na comunicação existe confusão e imprevisibilidade, mesmo que se tente remediá-las e impor regras.

A comunicação está pautada por dúvidas sobre questões complexas como o que é a arte ou a poesia. Estes são conceitos de difícil definição pois a conceção de estética diverge entre os seres humanos. Uma das dificuldades prende-se com o facto de não se saber o que significa “espécie de”. Em “E porquê um cisne?” é apresentado o exemplo do ballet Petrushka, da bailarina em cima do palco e da indecisão sobre se esta se assemelha a uma boneca ou a um cisne, uma “espécie de coisa humana” ou uma “espécie de cisne”. Nenhum deles é realmente a coisa, não pertence a nenhum grupo em particular. Como é aqui considerado por Bateson, ma “espécie de” é uma relação entre algumas ideias que se tem sobre umas coisas e algumas ideias que se tem sobre outras coisas. Comunicar é também a construção de conceitos, de ligações, de simbolismos que remetam para algo.

O processo de comunicar é algo que tem sido estudado academicamente ao longo dos anos. O ultimo dos metadiálogos, “O que é um instinto?”, é, como dia Carlos Henriques de Jesus, académico. Na tentativa de entender o que é um instinto são nos apresentadas as ideias de hipótese e principio explanatório. Enquanto que uma hipótese é uma tentativa de explicar algo em particular, um principio explanatórios não explica nada em concreto sendo apenas um consenso convencional entre os cientistas para que possam parar de explicar coisas. Esta ideia pode-nos remeter para a natureza da teoria e a diferença entre teoria (explicação) e modelo (representação).

A linguagem e as ferramentas são apresentadas como a grande diferença entre as pessoas e os animais. Possuem, inevitavelmente, uma finalidade e para a atingir são utilizadas ferramentas. Cada coisa que impossibilite atingi-la é um obstáculo. A linguagem é considerada como “estrada real” para a objetividade e para a consciência, elementos importantes para a capacidade de comunicar.

O processo de comunicação encontra-se também repleto de recursos como a ironia e sarcasmo, mesmo que estes não sejam explicitados pelos interlocutores aquando da sua utilização (quando as pessoas a conversar estão a ser irónicas não dizem que o estão a ser, é algo que se denota). Estes recursos são características exclusivamente humanas.

Já a utilização de opostos não é exclusiva do Homem. Neste metadiálogo final é dado o exemplo de um cachorrinho quando se deita de costas e apresenta a barriga a um cão maior. “É uma espécie de convite para o cão grande atacar. Mas funciona de maneira oposta. Evita que o cão grande ataque.” (Bateson, 1972, p. 88). Aquilo que é demonstrado nem sempre corresponde àquilo que realmente se quis dizer.

Entre dois amigos, lutar a brincar pode ser uma maneira de mostrar amizade mas pode também ocorrer o caso de se interpretar mal a situação e começarem a lutar.

O “Não” faz parte da linguagem verbal e não existe nenhum sinal de ação para “não”. Esta questão encontra-se presente no axioma 4 da pragmática da comunicação – a linguagem não verbal não tem negação, uma das dificuldades que se apresenta na tradução da linguagem analógica para a linguagem digital.

Comunicar é… tudo.

A Influência das Aplicações de Opinião nas Estratégias de Comunicação dos Restaurantes

Num mundo cada vez mais dominado pelas novas tecnologias e pelos social media, é praticamente impossível escapar à sua influencia no dia-a-dia. A universalização do acesso à internet tem trazido consigo a ideia de que todos temos sempre algo a dizer sobre alguma coisa e que o podemos facilmente partilhar com uma quantidade inimaginável de outros indivíduos.

Para além da vontade de partilhar também o desejo por saber sempre mais e estar a par de tudo tem vindo a aumentar. Esta tendência é transversal a inúmeras áreas e a restauração não é exceção. Antigamente, sempre que pretendíamos encontrar um restaurante para visitar a escolha era feita ao acaso, mediante o sitio onde nos encontrávamos, por termos ouvido falar ou, então, através de recomendações feitas por amigos ou conhecidos, pessoas com quem nos relacionávamos pessoalmente. Hoje em dia, esta procura é muitas vezes feita de antemão recorrendo às várias aplicações móveis que têm surgindo com o intuito de facilitar a partilha de restaurantes e experiências gastronómicas. Aplicações como o Yelp, The Fork e Zomato foram criadas para que qualquer um possa pesquisar restaurantes em, praticamente, qualquer parte do mundo e consultar informações acerca dos mesmos antes de os visitar. Nestas plataformas qualquer um pode adicionar a sua opinião sobre os locais que visita e classifica-los mediante a sua apreciação. É através destas avaliações que as nossas escolhas são, não raras vezes, influenciadas. Opiniões negativas podem levar a que pensemos duas vezes antes de visitar um restaurante enquanto que opiniões positivas podem aumentar a nossa curiosidade para o fazer.

Mas não são só os clientes que podem fazer parte destas comunidades. Os restaurantes têm também a possibilidade de recorrer às mesmas para comunicar com o seu público e estreitar a sua relação com estes.

A questão que se coloca é: tendo acesso àquilo que é dito sobre si, de que forma pode a industria da restauração tirar partido dessa informação para a criação das suas estratégias de comunicação?

A facilidade com que os restaurantes podem ter conhecimento acerca das experiências daqueles que os visitam pode ser um ponto de partida para o delinear de estratégias?

E, também, de que forma poderá uma boa/má gestão da sua presença nestas plataformas influenciar o comportamento dos consumidores e a sua relação com o estabelecimento?

Com tudo aquilo que o domínio do mundo digital tem de bom e de mau é importante perceber que a etapa da investigação está a ser progressivamente facilitada. Aquilo que importa saber está a um clique de distância, num “estudo de mercado” em constante desenvolvimento.

Posto isto, tona-se pertinente entender a utilidade destas aplicações para os profissionais de comunicação e o  modo como estas podem mudar a maneira de pensar a sua ação.